Considerado um marco da engenharia nacional e um divisor de águas na história do semiárido nordestino, o Lago de Sobradinho consolidou-se como um dos maiores reservatórios artificiais do mundo e um dos mais importantes instrumentos de desenvolvimento do país. Localizado no norte da Bahia, o lago possui 4.214 km² de área inundada e capacidade para armazenar 34 bilhões de metros cúbicos de água, volume suficiente para manter o fluxo do rio São Francisco mesmo durante longos períodos de estiagem.
Sua criação, na década de 1970, resultou do represamento do São Francisco para a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, empreendimento operado pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF). A usina é atualmente a maior do estado e uma das principais fontes de geração de energia do Nordeste.

Engenharia monumental e segurança hídrica
Com 400 quilômetros de extensão, 25 quilômetros de largura máxima e cota nominal de 392,5 metros acima do nível do mar, o Lago de Sobradinho foi projetado para garantir a regularização da vazão do rio São Francisco e a estabilidade energética e hídrica da região. Sua vazão média de 2.060 m³/s permite suportar até dois anos de seca sem comprometer o abastecimento e a geração de energia.
Além de assegurar a operação de um vasto sistema hidrelétrico interligado, o reservatório tem papel essencial no equilíbrio ambiental e socioeconômico de uma ampla faixa do território nordestino.

Reconfiguração territorial e impacto social
A formação do lago, em 1974, demandou a remoção e o reassentamento de cerca de 70 mil pessoas, provenientes de cinco municípios submersos: Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso, Sento Sé e Sobradinho. As populações deslocadas foram transferidas para novas cidades planejadas, que receberam os mesmos nomes das localidades originais.
Durante os períodos de seca prolongada, as ruínas das antigas cidades ainda emergem das águas, revelando parte da memória histórica de um processo que transformou profundamente a paisagem e a vida no sertão baiano. O episódio foi eternizado na canção “Sobradinho”, de Sá, Rodrix e Guarabyra, símbolo da mudança vivida por toda uma geração:
“Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé…
O sertão vai virar mar,
Dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão.”
Um novo ciclo de desenvolvimento econômico
Cinco décadas após sua criação, o Lago de Sobradinho consolidou-se como pilar do desenvolvimento regional. A disponibilidade de água em larga escala permitiu o surgimento de um dos principais polos de fruticultura irrigada da América Latina, responsável pela produção e exportação de uvas, mangas, goiabas e melões.


A região, que abrange municípios baianos e pernambucanos, abriga hoje um complexo agroindustrial de referência internacional, com destaque para a vinicultura do Vale do São Francisco, que produz rótulos reconhecidos em diversos países.

Além da agricultura irrigada, a presença do lago estimulou o avanço da caprinocultura e da ovinocultura, fortalecendo as cadeias produtivas locais e gerando emprego e renda para milhares de famílias. O turismo ecológico e enogastronômico também vem ganhando espaço, impulsionado pelas paisagens naturais, pela cultura sertaneja e pela crescente valorização dos produtos regionais.

Patrimônio energético, ambiental e cultural
Mais do que um reservatório, o Lago de Sobradinho tornou-se símbolo de resiliência e desenvolvimento sustentável no semiárido brasileiro. Sua importância transcende a geração de energia: ele representa a integração entre tecnologia, natureza e sociedade, equilibrando o abastecimento hídrico, o crescimento econômico e a preservação do patrimônio histórico e cultural da região.
Por: Redação BSF
Fotos/ Vídeos: Acervo/BSF

