Italianos na Bahia: a pequena, mas resiliente, imigração peninsular que ajudou a construir o comércio e as ferrovias do estado

Entre 1856 e 1899, cerca de 1.267 italianos desembarcaram em Salvador. Vindos principalmente da Calábria, eles se concentraram na capital e no interior ferroviário, deixando marcas no comércio, na mineração e na cultura baiana

SALVADOR – Diferente de São Paulo e Rio Grande do Sul, a Bahia não recebeu massas de imigrantes italianos. Mas entre o fim do século XIX e o início do XX, a comunidade italiana baiana foi a mais numerosa do Nordeste e deixou um legado discreto, porém duradouro, na capital e no interior.

Chegada pelo Porto de Salvador: 1856–1899

A imigração italiana na Bahia começou antes mesmo da unificação da Itália. Os registros da polícia portuária de Salvador mostram um aumento decisivo a partir de 1855, quando se gestava a unificação italiana.

Entre 1856 e 1864, desembarcaram no Porto de Salvador 1.267 italianos. A maioria chegou por via marítima em navios comerciais que faziam a rota Gênova–Salvador, trazidos por agentes comerciais e companhias de navegação italianas que já operavam na capital baiana desde 1850.

As levas mais consistentes de calabreses de Laino Borgo, Cosenza, ocorreram em dois momentos:


1860–1875: primeiros grupos ligados à construção da ferrovia Bahia-São Francisco e ao comércio urbano de Salvador.


1885–1899 :segunda onda, após o fracasso das colônias agrícolas baianas. Nessa fase chegaram famílias como os Longo, Paladino, Pepe e Colavope, quase todas oriundas da província de Cosenza.

Depois de 1900, a entrada de italianos caiu drasticamente, acompanhando o declínio da imigração para o Nordeste.

De onde vieram e quem eram

Os primeiros imigrantes da “grande imigração” eram majoritariamente vênetos, cerca de 30% do total, seguidos por campanos, calabreses e lombardos.

Na Bahia, o perfil foi diferente: a comunidade era proveniente quase que totalmente de Cosenza, na Calábria. Eram em grande parte camponeses pobres do sul da Itália, os _braccianti_, que não tinham recursos e buscavam trabalho assalariado.

Sobrenomes recorrentes na documentação de Salvador e do interior baiano incluem:


Longo, Paladino, Pepe, Colavope – comuns na Calábria, especialmente na província de Cosenza


De Luca, Romano, Caffaro, Marotta, Gentile, Lombardi, Ruggiero

Destaque: Domenico Longo e Domenica Manfredi, de Laino Borgo ao Gravatá

Um dos casos emblemáticos da imigração calabresa em Salvador é o do casal Domenico Longo e Domenica Manfredi, naturais de Laino Borgo, na província de Cosenza.

O casal chegou a Salvador na década de 1880 e se instalou na região do Gravatá/Baixa dos Sapateiros, tradicional polo de ofícios manuais e comércio popular no centro da cidade.

Domenico trabalhava como sapateiro e montou uma pequena fábrica de calçados na Baixa dos Sapateiros, atendendo à demanda crescente da capital baiana por calçados de couro. A oficina familiar tornou-se referência no bairro e ajudou a fixar o sobrenome Longo entre os comerciantes do centro de Salvador.

Hoje, os descendentes de Domenico e Domenica estão na sexta geração na Bahia. A família mantém vínculos com a comunidade italiana de Salvador e é lembrada como parte da geração que fez da Baixa dos Sapateiros um dos bairros mais dinâmicos do comércio soteropolitano.

Onde se instalaram e o que faziam

O porto de Salvadorfoi a principal porta de entrada. Os italianos se concentraram em:


1. Salvador: comércio urbano, sapataria, alfaiataria, padaria e pequenos armazéns. A Baixa dos Sapateiros foi um dos núcleos principais.


2. Ferrovias e interior: cidades como Alagoinhas, Santo Amaro, Cachoeira e São Félix receberam italianos ligados à construção e manutenção da ferrovia.


3. Mineração: alguns trabalharam nas minas de diamante e nitrato de potássio da Chapada Diamantina.

A Casa d’Italia e seu fechamento

A Casa d’Italia de Salvador foi fundada em 1911 como centro de sociabilidade e assistência mútua. Localizada na Avenida Sete de Setembro, abrigava a Società Italiana di Mutuo Soccorso e a escola de língua italiana.

Entrou em declínio nos anos 1940 com a Segunda Guerra e a política de nacionalização de Vargas, que restringiu o uso público da língua e símbolos italianos. Sem recursos e com a assimilação da comunidade, o prédio foi vendido nos anos 1980. Hoje as atividades são mantidas pelo Consulado Honorário da Itália em Salvador e pela Dante Alighieri.

Um legado que segue na sexta geração

Mesmo pequena, a imigração italiana na Bahia diversificou o comércio, a gastronomia e a mão de obra especializada de Salvador. Os sobrenomes Longo, Paladino, Pepe e Colavope ainda aparecem em registros civis da capital, e histórias como a de Domenico e Domenica mostram como a imigração calabresa fincou raízes no coração da cidade.

Fontes: IBGE Brasil 500 anos de povoamento; Arquivo Nacional, registros de entrada de estrangeiros; Wikipedia Imigração italiana no Brasil.

Foto: Divulgação/ Comuna Laino Borgo, Província de Consenza, região da Calábria-Itália