Com exportação em queda e indústria ainda ociosa, safra 2026 da Bahia sente reflexo da quebra africana e disputa espaço com amêndoa importada
Maior produtor nacional, a Bahia vê a lavoura cacaueira entrar no segundo semestre de 2026 com sinais mistos: o preço da arroba reagiu e fechou em R$ 305,00 no dia 24/06/2026, alta de 7,02% no dia e de 35% em 15 dias, segundo o Mercado do Cacau. Na Bolsa de Nova York, o contrato julho/26 foi a US$ 4.902/ton, puxado pela crise de oferta na África. Apesar da alta, produtores baianos enfrentam falta crônica de mão de obra, custos elevados e a concorrência da amêndoa importada que abastece a indústria moageira.
Preço de hoje: alívio parcial
Bahia: R$ 305,00/@
Espírito Santo: R$ 1.200,00/saca 60 kg
Pará: R$ 19,30/kg
A valorização recente trouxe fôlego, mas o custo por arroba passa de R$ 200 em grande parte das fazendas do Sul da Bahia. Diaristas estão mais caros e escassos. Muitas propriedades atrasam colheita e poda por não conseguirem equipe, o que aumenta perdas e favorece a vassoura-de-bruxa.
Mão de obra: o gargalo que não passa
Associações do Sul da Bahia relatam êxodo rural, envelhecimento dos trabalhadores e concorrência com comércio, serviços e programas sociais. O resultado é fila de fazendas sem gente para quebrar cacau. A diária subiu, mas a oferta não acompanha. Sem trabalhador, não adianta preço alto: o cacau fica no pé e perde qualidade.
Exportação e importação: Brasil ainda depende de fora
Dados da AIPC mostram que o país continua importador líquido de amêndoa. No 1º tri/2026, o recebimento nacional foi de 28.605 toneladas, alta de 61% ante o 1º tri/2025, mas as importações somaram 18.068 toneladas no mesmo período. Ou seja, para cada 1,6 tonelada de cacau nacional que chega à indústria, 1 tonelada vem de fora. 3c86
Já as exportações de derivados caíram 15,4% no 1º tri/2026, para 12.557 toneladas, ante 14.840 toneladas no 1º tri/2025. Argentina ficou com 47% do volume, seguida por EUA 15% e México 8%. As exportações de amêndoas são residuais: só 184 toneladas no trimestre. O Brasil só tem relevância internacional como exportador de derivados, não de matéria-prima. 3c86
“Sem competitividade, o Brasil perde espaço e amplia a ociosidade da indústria moageira”, alerta Anna Paula Losi, diretora-executiva da AIPC. A lógica é clara: quando o preço interno sobe demais, a indústria recorre à importação. Isso cria um teto para a arroba baiana. 3c86
Quebra africana dita o jogo
Costa do Marfim e Gana respondem por 60% da produção mundial. Em 2025/2026, os dois países enfrentam crise severa de oferta e queda de preços pagos ao produtor. Gana reduziu em 28,6% o preço garantido para o restante da safra principal. A Costa do Marfim avalia seguir o mesmo caminho. A queda global fez o cacau despencar quase 50% em Nova York nos últimos meses, mas a recente reação veio justamente da percepção de que a oferta seguirá restrita. cfae
O impacto na Bahia é duplo: 1) Quando NY sobe, a arroba reage aqui; 2) Quando NY cai, a indústria brasileira prefere importar amêndoa africana mais barata, pressionando o produtor local.
O que trava e o que pode destravar
- Trabalhador: Sem política para fixar mão de obra, mecanizar poda/quebra e qualificar jovens, a produtividade não sobe.
- Custo: Fertilizante, energia e defensivo corroem margem mesmo com arroba a R$ 305.
- Valor agregado: Cacau fino, IG Sul da Bahia e chocolate de origem são saída para fugir da guerra de preço com importado.
- Câmbio: Real valorizado tira competitividade da exportação de derivados e barateia a importação de amêndoa.
A Bahia responde por cerca de 70% do cacau brasileiro. Para voltar a ser protagonista, precisa de gente no campo, custo sob controle e indústria comprando mais cacau nacional. O preço de hoje alivia, mas não resolve.

