Com Pelourinho como polo principal em Salvador, Sufotur habilita 283 municípios e destina R$ 147 milhões a cachês; recomendação sobre gastos reacende debate entre tradição e mercado
O São João de 2026 consolidou-se como o principal ativo cultural e econômico do primeiro semestre no Nordeste. Na Bahia, o circuito junino passou por reformulação: sem edição no Parque de Exposições, o Governo do Estado transferiu o polo principal do São João da Bahia para o Pelourinho, Largo do Carmo e Santo Antônio Além do Carmo, com descentralização para oito bairros de Salvador: Paripe, Periperi, Itapuã, Liberdade, Mussurunga, Cajazeiras, Nordeste de Amaralina e Boca do Rio. A programação ocorreu entre 19 e 24 de junho, com mais de 250 atrações.
A Prefeitura de Salvador, por sua vez, manteve em mais um ano o São João na Rua Chile e na praça municipal, com programação gratuita, barracas de comidas típicas, quadrilhas e trios de forró pé-de-serra voltados a artistas locais.
Cultura: cota para o forró raiz e embate sobre cachês
A edição 2026 teve como diretriz o “São João Raiz”, com foco em forró pé-de-serra, xote, baião, zabumba, triângulo e sanfona. Para garantir espaço à música tradicional, o edital da Sufotur determinou que pelo menos 25% dos recursos para apresentações artísticas fossem aplicados na contratação de artistas ligados ao forró tradicional.
A medida respondeu à fiscalização do Ministério Público da Bahia, que recomendou às prefeituras que os cachês de 2026 não ultrapassassem os valores de 2025 corrigidos pela inflação. A recomendação veio após questionamentos sobre a disparidade de valores pagos a artistas de diferentes gêneros.
O cantor Flávio José cancelou cerca de 15 shows na Bahia. Ele cobra R$ 350 mil por apresentação em 2026, 40% a mais que no ano anterior. “Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”, declarou.
Levantamento do MP-BA em 137 prefeituras mostrou que nenhum dos dez maiores cachês registrados na Bahia é de forró tradicional. Os maiores valores são: Gusttavo Lima R$ 1,1 milhão, Wesley Safadão R$ 1 milhão, Luan Santana, Victor & Leo e João Gomes R$ 750 mil cada. Dos listados, três são nordestinos.
Economia: R$ 147 milhões em cachês e R$ 3 bilhões de impacto
A Sufotur habilitou 283 municípios baianos para receber apoio do programa “São João da Bahia e Demais Festejos Juninos 2026”, contemplando os 27 Territórios de Identidade. Municípios em situação de emergência ou calamidade foram vetados no apoio.
Valores oficiais para 2026:
- R$ 147 milhões destinados às apresentações artísticas nos municípios apoiados.
- Mínimo de 25%, ou R$ 36,75 milhões, com aplicação obrigatória em forró tradicional.
- Expectativa de movimentação superior a R$ 3 bilhões na economia estadual, considerando turismo, comércio, agricultura familiar e serviços.
A cadeia produtiva envolve de vendedores de milho a montadores de palco. O preço do milho verde chega a subir 40% em junho. Em Salvador, a rede hoteleira registra ocupação acima de 90% nos fins de semana do evento. No interior, Amargosa, Cruz das Almas, Senhor do Bonfim, Jequié e Ibicuí seguem como âncoras, com apoio a mais de 300 festas.
Turismo: interior e capital na rota junina
O São João descentraliza o turismo. No Nordeste, Caruaru-PE e Campina Grande-PB recebem público rotativo acima de 2,5 milhões. Petrolina-PE anunciou mais de 100 atrações em 2026. Na Bahia, a grade de Salvador incluiu Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Falamansa, Dorgival Dantas e Mastruz Com Leite. O gasto médio do turista é de R$ 280 por dia.
Política: arraial como palanque em ano pré-eleitoral
Em 2026, pré-candidatos ao Governo da Bahia, ao Senado e à Câmara circularam por arraiais. Nomes como ACM Neto (UB), João Roma (PL) e Ângelo Coronel (Republicanos) usaram a agenda junina para encontros com bases eleitorais. Prefeitos também utilizam a festa para inaugurações e anúncios.
A fiscalização sobre cachês e a regra dos 25% para forró tradicional foram articuladas entre Governo do Estado, MP e classe artística. O objetivo declarado é equilibrar uso de recursos públicos, preservação cultural e apelo comercial. Tribunais de contas ampliaram o monitoramento de contratos após denúncias de superfaturamento em anos anteriores.
Desafios apontados
- Orçamento: Municípios chegam a comprometer 20% da verba anual de cultura apenas em junho.
- Segurança e estrutura: Multidões exigem reforço policial, saúde e mobilidade.
- Clima: Chuvas em 2024 e 2025 causaram cancelamentos e prejuízos, aumentando a demanda por estruturas cobertas.
- Equilíbrio de grade: Conciliar nomes nacionais, forró estilizado e forró pé-de-serra sem descaracterizar a festa.
O São João 2026 na Bahia trocou o Parque de Exposições pelo Pelourinho, implementou cota de 25% para forró tradicional nos R$ 147 milhões da Sufotur e operou sob recomendação do MP para gastos. O resultado é um evento que busca ser, ao mesmo tempo, motor econômico de R$ 3 bilhões, vitrine política e instrumento de preservação cultural.

