[Opinião] O efeito Tagner: a aposta de Caetano que pode fortalecer Elinaldo em 2026 e 2028

Por Anderson Santos*

Na tentativa de frear Elinaldo, o grupo governista pode ter criado dificuldades para a reeleição de Ivoneide e criado um ambiente político favorável para a oposição em Camaçari.

Enquanto a oposição, liderada pelo ex-prefeito Elinaldo, trabalha para ampliar alianças regionais, o grupo governista de Camaçari parece ter escolhido um caminho mais arriscado para 2026. A decisão de lançar o vereador Tagner Cerqueira como candidato a deputado estadual, ao mesmo tempo em que busca a reeleição da deputada federal Ivoneide Caetano, pode acabar produzindo um efeito político contrário ao planejado.

A aposta tinha um objetivo evidente: criar um contraponto local à candidatura de Elinaldo. O problema é que eleições proporcionais raramente são vencidas apenas pela presença de um adversário no mesmo território. Elas são vencidas por estrutura, alianças e, principalmente, por densidade eleitoral regional e a capacidade de transformar apoios políticos em votos distribuídos por diferentes municípios.

Nesse aspecto, Elinaldo chega à disputa em posição privilegiada. Após dois mandatos como prefeito, consolidou-se como principal liderança da oposição em Camaçari e construiu uma rede de apoios que ultrapassa os limites do município, contando com prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e lideranças ligadas ao campo do grupo do ex-prefeito ACM NETO, em diversas regiões da Bahia.

A estratégia adotada pelo grupo de Caetano chama atenção porque ocorre justamente em um momento em que a deputada federal Ivoneide Caetano enfrenta uma disputa interna extremamente competitiva dentro da Federação PT, PV e PCdoB. Diferentemente de 2022, quando foi eleita com pouco mais de 105 mil votos, o cenário de 2026 tende a exigir uma votação ainda maior para assegurar uma das vagas da federação, que conta com nomes tradicionais e fortemente estruturados em todo o estado.

Nesse contexto, surge uma pergunta inevitável: seria mais estratégico concentrar toda a estrutura política do grupo na reeleição de Ivoneide ou dividir esforços entre uma candidatura federal e outra estadual?

A questão ganha relevância porque a política não é feita apenas de intenção, mas de prioridades. Recursos políticos, articulações, lideranças, mobilização territorial e capacidade de negociação possuem limites. Quanto mais candidaturas competitivas um mesmo grupo precisa sustentar, maior é o desafio de manter todos os projetos viáveis.

Além disso, a tentativa de conter o avanço de Elinaldo através da candidatura de um nome identificado com o governo municipal parece partir de uma leitura discutível do comportamento do eleitor. Historicamente, o eleitor de oposição tende a buscar candidatos claramente posicionados no campo oposicionista. Da mesma forma, o eleitor governista tende a permanecer no campo governista. Isso significa que a simples presença de um candidato apoiado pela administração municipal dificilmente altera a tendência natural de concentração dos votos oposicionistas em torno da principal liderança da oposição.

Por essa razão, muitos observadores enxergam um paradoxo na estratégia adotada. Ao tentar criar uma barreira para o crescimento político de Elinaldo, o grupo governista pode acabar fortalecendo ainda mais sua condição de principal referência da oposição em Camaçari.

As projeções que circulam atualmente nos bastidores da política baiana apontam um cenário de elevada competitividade tanto para Ivoneide Caetano quanto para Tagner Cerqueira. Em diferentes análises eleitorais, ambos aparecem disputando as últimas vagas de suas respectivas chapas, o que significa que nenhum dos dois chega à eleição em condição confortável. Em uma disputa proporcional cada vez mais acirrada, a margem para erro é pequena e a necessidade de ampliar votos para além dos redutos tradicionais torna-se decisiva.

Caso esse cenário se confirme nas urnas, o grupo liderado por Caetano poderá enfrentar uma de suas derrotas políticas mais significativas dos últimos anos. A não eleição de Ivoneide para a Câmara Federal e de Tagner para a Assembleia Legislativa representaria não apenas a perda de dois projetos eleitorais estratégicos, mas também o fortalecimento do principal adversário político da atual gestão. Ao mesmo tempo, Elinaldo poderia emergir da eleição com votação expressiva, consolidado como principal liderança da oposição em Camaçari e figurando entre os nomes mais votados — ou até mesmo como o mais votado — dentro do União Brasil para deputado estadual.

Se isso ocorrer, a leitura dos bastidores será inevitável: enquanto a oposição ampliou sua presença regional e concentrou forças, o grupo governista apostou numa estratégia que fragilizou sua força política em um momento decisivo. Em política, nem sempre o maior risco vem do adversário. Muitas vezes, ele nasce dos erros de cálculo cometidos dentro do próprio grupo.

*Anderson Santos, pedagogo e pensador político