Agro gigante, estrutura pública sob cobrança: a força do campo que movimenta a Bahia

Do Oeste ao Vale do São Francisco, do cacau à pecuária, dos grãos à fruticultura, o agronegócio movimentou R$ 118,4 bilhões em 2025 e respondeu por mais de um quinto da economia estadual; dimensão do setor amplia debate sobre orçamento, infraestrutura, assistência, crédito, logística e políticas públicas

A Bahia tem 417 municípios, dimensão territorial comparável à de países e uma diversidade agropecuária difícil de encontrar em outro lugar do Brasil. Do algodão do Oeste à manga do Vale do São Francisco; do cacau do Sul ao café da Chapada e do Sudoeste; da pecuária à avicultura; das florestas plantadas à caprinocultura e à equinocultura, o campo baiano tornou-se uma das grandes forças da economia estadual.

E os números ajudam a dimensionar essa importância.

Dados oficiais da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) mostram que o PIB do agronegócio baiano chegou a R$ 118,4 bilhões em 2025, crescimento real de 4%. O setor respondeu por 22,1% de toda a economia da Bahia naquele ano. Em 2024, já havia movimentado R$ 108,8 bilhões.

Mais impressionante ainda foi o desempenho externo. Em 2025, as exportações do agronegócio baiano atingiram US$ 6,72 bilhões, maior valor da série histórica. A safra estadual de cereais, leguminosas e oleaginosas ultrapassou 12,8 milhões de toneladas, enquanto soja, algodão, frutas, carnes e outros produtos ampliaram a presença da Bahia nos mercados nacional e internacional.

Um estado, muitos “Brasis” agrícolas

Falar em agro baiano no singular talvez seja insuficiente. Na prática, existem diversas Bahias produtivas.

No Oeste, municípios como Luís Eduardo Magalhães, Barreiras, São Desidério, Formosa do Rio Preto e Correntina formam uma potência de grãos e fibras. A soja é protagonista, acompanhada por milho e algodão, além da pecuária e da diversificação crescente das culturas.

Na safra 2025/26, a Aiba confirmou resultado histórico: 9,448 milhões de toneladas de soja em 2,218 milhões de hectares, com produtividade média de 71 sacas por hectare, recorde estadual e, segundo a entidade, a maior média brasileira naquele ciclo. Somadas as principais culturas acompanhadas pela associação, a estimativa chegou a 14,081 milhões de toneladas.

O algodão é outro símbolo dessa agricultura de alta tecnologia, colocando a Bahia entre os protagonistas nacionais da produção da fibra.

No Vale do São Francisco, especialmente em Juazeiro, Casa Nova, Curaçá, Sento Sé e municípios vizinhos, irrigação e tecnologia transformaram áreas do semiárido em uma potência da fruticultura. Manga e uva abastecem o Brasil e atravessam o Atlântico.

O Vale responde por cerca de 95% das mangas exportadas pelo Brasil, segundo informação divulgada pela Adab, e concentra parcela predominante das exportações brasileiras de uva.

Casa Nova também ocupa posição histórica na criação de caprinos, atividade na qual a Bahia possui liderança nacional. Seguindo o São Francisco, Rodelas tornou-se referência na produção de coco.

Na Chapada Diamantina, convivem café, uva e culturas de maior valor agregado. No Sudoeste, café e pecuária constituem cadeias tradicionais, com produção reconhecida tanto em quantidade quanto em qualidade.

No Sul da Bahia, o cacau permanece como produto de identidade econômica, histórica e cultural, acompanhado por banana, café e pecuária. Já o Extremo Sul abriga uma poderosa cadeia de florestas plantadas, madeira e celulose, além da pecuária.

No Nordeste do estado encontram-se cadeias como coco, eucalipto, milho, laranja e pecuária. No Recôncavo e em outras regiões, avicultura e diferentes sistemas produtivos completam um mosaico que ajuda a explicar por que é inadequado pensar uma única política agropecuária para todo o território.

Os números de 2025 reforçam essa diversidade: a Bahia produziu 906 mil toneladas de banana, 632 mil toneladas de laranja e 102 mil toneladas de uva. A soja chegou a 8,6 milhões de toneladas naquele levantamento. Na pecuária, somente no quarto trimestre foram abatidos aproximadamente 372 mil bovinos e 35 milhões de frangos; a produção de leite alcançou 155 milhões de litros no período.

Os cavalos também movimentam o campo

Há ainda uma atividade frequentemente esquecida quando se discute o tamanho do agro: a equinocultura.

A Bahia possui forte tradição na criação do Mangalarga Marchador, figurando entre os grandes plantéis brasileiros e reunindo criatórios reconhecidos nacionalmente pela seleção genética, com especial destaque para a Marcha Picada.

Essa cadeia movimenta reprodução, genética, veterinária, nutrição animal, mão de obra, transporte, competições, leilões, exposições, turismo e comércio.

É mais uma demonstração de que o agronegócio não termina na porteira. Existe uma extensa economia antes e depois dela.

Se o agro é tão grande, qual deve ser o tamanho da política pública?

É exatamente nesse ponto que surge uma questão que merece discussão.

Produtores e entidades do setor cobram há anos maior capacidade institucional, infraestrutura, estradas, segurança rural, defesa sanitária, assistência técnica, irrigação, armazenamento, logística, crédito e políticas capazes de atender às diferentes cadeias produtivas.

A própria estrutura administrativa estadual separa atribuições. A Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) possui como missão prioritária o fortalecimento da agricultura familiar, assentados, comunidades tradicionais e outros segmentos específicos do meio rural.

É uma política necessária.

Agricultura familiar produz alimentos, gera renda, mantém famílias no campo e possui enorme relevância econômica e social, especialmente no interior da Bahia. O fortalecimento desse segmento deve permanecer entre as prioridades do Estado.

Mas reconhecer sua importância não pode significar reduzir a atenção destinada ao agricultor empresarial.

São segmentos diferentes, com características próprias, mas absolutamente complementares.

Seagri e SDR: um contraste que merece debate

Nos últimos anos, a SDR ganhou protagonismo na execução de programas, projetos e investimentos direcionados principalmente à agricultura familiar. Paralelamente, produtores e entidades passaram a questionar a capacidade orçamentária e operacional da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri) diante da dimensão alcançada pelo agronegócio baiano.

E é justamente aí que os números provocam uma reflexão.

Não se trata de retirar recursos da agricultura familiar, muito menos de diminuir sua relevância. Trata-se de perguntar se uma Bahia cujo agronegócio movimentou R$ 118,4 bilhões em 2025 e respondeu por 22,1% da economia estadual não deveria também possuir uma estrutura institucional, técnica e orçamentária compatível com a dimensão, diversidade e complexidade de sua produção agropecuária.

O agricultor empresarial é parte fundamental dessa engrenagem.

É quem investe, assume riscos climáticos e de mercado, contrata trabalhadores, compra máquinas, tecnologia e insumos, demanda transporte e serviços, recolhe tributos, movimenta o comércio das cidades do interior, abastece agroindústrias e coloca produtos baianos nos mercados brasileiro e internacional.

Quando uma tonelada de soja deixa o Oeste, uma manga sai do Vale do São Francisco para exportação, o algodão baiano chega à indústria têxtil, o cacau do Sul ganha valor agregado ou a pecuária movimenta frigoríficos e laticínios, existe uma cadeia econômica muito maior funcionando ao redor daquela propriedade.

Por isso, agricultura familiar e agricultura empresarial não deveriam disputar espaço dentro do Estado.

Uma política fortalece a inclusão, a produção e a permanência das famílias no campo; a outra precisa assegurar competitividade às cadeias que produzem em escala, empregam, exportam, investem e possuem participação decisiva na formação do PIB estadual.

A Bahia precisa das duas.

O contraste entre a crescente musculatura institucional destinada ao desenvolvimento rural e as limitações apontadas em torno da estrutura da Seagri merece, portanto, entrar definitivamente no debate sobre o futuro do campo baiano.

Crédito ajuda, mas não resolve tudo

Também seria incorreto atribuir todo o avanço do setor apenas à iniciativa privada. Existem crédito federal, defesa sanitária, pesquisa, perímetros irrigados e diferentes políticas públicas que participam dessa engrenagem.

No Plano Safra 2025/26, por exemplo, a agricultura empresarial havia contratado na Bahia R$ 2,084 bilhões até o período analisado pelo boletim estadual. Quatro territórios — Bacia do Rio Grande, Bacia do Rio Corrente, Extremo Sul e Costa do Descobrimento — concentravam 70% desses recursos.

Para 2026/27, o Plano Safra nacional disponibilizou R$ 525,1 bilhões ao agronegócio brasileiro.

Mas financiamento para produzir não substitui estrada.

Não substitui segurança rural, defesa sanitária eficiente, armazenamento, energia confiável, conectividade, irrigação, regularização fundiária, pesquisa aplicada e logística competitiva.

E, sobretudo, não substitui uma política estadual capaz de enxergar as particularidades de cada território.

O produtor continua produzindo

Talvez o dado mais emblemático esteja justamente aí.

Apesar das dificuldades conjunturais, a produção física continua avançando. No primeiro trimestre de 2026, mesmo com queda dos preços dos principais produtos agropecuários, o PIB real do agronegócio baiano cresceu 1,7%. Foram R$ 19,18 bilhões movimentados apenas nos três primeiros meses do ano.

No Oeste, a produtividade recorde da soja demonstra até onde tecnologia, gestão, pesquisa e investimento conseguem levar o campo baiano.

É justamente por isso que a discussão sobre políticas públicas ganha importância.

Não se trata apenas de ajudar quem produz. Trata-se de compreender que fortalecer a competitividade do agro significa fortalecer uma atividade responsável por mais de um quinto da economia estadual, com reflexos diretos sobre emprego, exportações, arrecadação, indústria, comércio e serviços.

A Bahia já demonstrou que possui terra, clima, recursos hídricos em determinadas regiões, tecnologia, produtores qualificados, genética, diversidade produtiva e capacidade empresarial.

O desafio é transformar essas vantagens em um verdadeiro projeto integrado de desenvolvimento rural.

Um estado com 417 municípios e vocações tão distintas não pode olhar para o Oeste da mesma maneira que olha para o Vale do São Francisco; nem aplicar ao cacau do Sul exatamente a mesma política destinada à pecuária do Sudoeste, à caprinocultura do semiárido ou à fruticultura irrigada do Norte.

Cada território exige planejamento.

Cada cadeia possui gargalos próprios.

E todas precisam dialogar.

Os números mostram que o agro baiano não é atividade periférica. É um dos pilares da economia da Bahia.

Por isso, diante da pujança apresentada pelo próprio campo, talvez a pergunta que deva orientar o debate sobre os próximos anos não seja apenas quanto o agro baiano já produz.

Mas outra, muito mais importante:

Quanto mais a Bahia poderia produzir, empregar, exportar e gerar riqueza se a estrutura, o orçamento e as políticas públicas destinadas ao setor avançassem na mesma velocidade da capacidade de quem está no campo produzindo?

Por Fabiano Bastos / Bahia sem Fronteiras