Jerônimo é reeleito e PT amplia hegemonia política na Bahia com Senado e maioria na Assembleia

Vitória em 376 dos 417 municípios, eleição de Rui Costa e Jaques Wagner e base de 41 deputados estaduais consolidam força do grupo que chegará a 24 anos consecutivos no comando da Bahia ao fim do novo mandato

A reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) para o governo da Bahia confirmou nas urnas mais do que a continuidade de um governador. O resultado das eleições de 2026 consolidou a longevidade de um projeto político iniciado com Jaques Wagner em 2007 e que, ao término do novo mandato, em 2030, completará 24 anos consecutivos à frente do Executivo estadual.

Jerônimo garantiu a reeleição ainda no primeiro turno, alcançando aproximadamente 4,63 milhões de votos, equivalentes a 55,8% dos votos válidos. ACM Neto (União Brasil), principal adversário, terminou com cerca de 3,63 milhões, ou 43,7%. A diferença ficou próxima de um milhão de votos.

O resultado assegura ao PT o sexto mandato consecutivo no governo baiano: dois de Jaques Wagner, dois de Rui Costa e, agora, dois de Jerônimo Rodrigues. É uma sequência que atravessa diferentes conjunturas nacionais e ajuda a dimensionar a capacidade do grupo de preservar sua força política principalmente no interior do estado.

Essa capilaridade aparece com ainda mais clareza quando a apuração é observada município por município. Jerônimo venceu em 376 dos 417 municípios baianos, aproximadamente 90% das cidades do estado. ACM Neto terminou na frente em 41. Em 2022, Jerônimo havia vencido em 352 municípios; quatro anos depois, portanto, ampliou sua vantagem territorial, embora a oposição tenha preservado importantes centros urbanos, entre eles Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari, Lauro de Freitas, Ilhéus e Itabuna.

O mapa eleitoral revela uma característica decisiva da política baiana contemporânea: enquanto a oposição demonstra competitividade em grandes centros, o grupo governista mantém uma extensa rede política no interior, sustentada por prefeitos, ex-prefeitos, deputados e lideranças municipais.

Rui e Wagner completam vitória governista no Senado

A força da chapa majoritária também chegou ao Senado. Os dois candidatos apresentados pelo grupo de Jerônimo conquistaram as duas vagas em disputa.

Rui Costa (PT), ex-governador da Bahia, terminou como o candidato mais votado, superando 4,33 milhões de votos, correspondentes a aproximadamente 30,1% dos votos válidos para senador. Jaques Wagner (PT), também ex-governador e candidato à reeleição, obteve cerca de 3,99 milhões, ou 27,65%, ficando com a segunda cadeira.

Com isso, o mesmo grupo político que venceu a disputa pelo Palácio de Ondina conquistou simultaneamente as duas vagas baianas em disputa no Senado — uma combinação que amplia a capacidade de interlocução política da Bahia em Brasília.

O resultado também possui forte simbolismo: Wagner iniciou, em 2007, o ciclo petista no governo estadual; Rui o sucedeu por dois mandatos; e ambos chegam agora ao Senado enquanto Jerônimo, sucessor de Rui no governo, conquista seu segundo mandato.

Base governista mantém ampla maioria na Assembleia

A eleição proporcional acrescentou outro componente relevante à vitória de Jerônimo. Dos 63 deputados estaduais que formarão a próxima Assembleia Legislativa da Bahia, 41 são identificados com a base governista, contra 21 integrantes da oposição e um parlamentar independente.

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, conquistou 20 cadeiras. O PSD, importante aliado estadual, elegeu nove deputados; Avante e PDT ficaram com cinco representantes cada; e o MDB conquistou duas cadeiras. Somados, os partidos que integram a base chegam aos 41 parlamentares.

O PT, isoladamente, terá a maior bancada partidária da Assembleia, com 14 deputados estaduais.

Na oposição, União Brasil e PP somam oito cadeiras, o PL terá sete, Republicanos quatro e PSDB/Cidadania duas. O PSOL terá a única representação classificada como independente.

Na prática, Jerônimo inicia seu segundo mandato com aproximadamente 65% das cadeiras da Assembleia vinculadas à base, número suficiente para garantir uma margem política confortável na tramitação da maior parte dos projetos de interesse do Executivo, embora votações que exijam quóruns especiais continuem demandando articulação.

Aliados também formam maioria entre os federais baianos

A composição da bancada baiana na Câmara dos Deputados também demonstra o alcance eleitoral da aliança que sustentou a candidatura de Jerônimo.

A Bahia elegeu 39 deputados federais. O PT conquistou sete cadeiras; PSD, seis; PCdoB e Avante, três cada; e MDB, PSB e PDT, uma cadeira cada.

Considerando os oito partidos que integraram formalmente a coligação de Jerônimo — PT, PCdoB, PV, PSD, MDB, Avante, PSB e PDT —, 22 dos 39 deputados federais eleitos pertencem às legendas da aliança estadual, embora o alinhamento de uma bancada federal não seja automaticamente reproduzido em todas as votações realizadas em Brasília.

Do outro lado, União Brasil elegeu seis deputados federais; PL, quatro; Republicanos, três; PP e PSDB, dois representantes cada.

Assim, o resultado de 2026 desenhou uma estrutura política ampla: governo estadual reeleito no primeiro turno, duas cadeiras conquistadas no Senado, maioria governista na Assembleia Legislativa e presença expressiva dos partidos aliados na bancada baiana da Câmara.

Vitória municipal projeta disputa de 2028

Talvez um dos números politicamente mais importantes para o futuro seja justamente o dos 376 municípios conquistados por Jerônimo.

Eleições estaduais e municipais obedecem a dinâmicas distintas, e uma vitória para governador não significa transferência automática de votos para candidatos a prefeito. Ainda assim, vencer em cerca de nove de cada dez municípios oferece ao grupo governista um mapa privilegiado para iniciar a construção política das eleições municipais de 2028.

O desempenho fornece indicadores sobre onde a base está consolidada, onde existem lideranças capazes de mobilizar votos e onde será necessário reorganizar alianças. Prefeitos e grupos municipais também passam a observar o governador reeleito como centro natural de articulação para os próximos quatro anos.

A disputa de 2028, portanto, será o próximo grande teste dessa hegemonia. O desafio do PT e de seus aliados será transformar a votação estadual em fortalecimento das bases municipais, principalmente nos grandes centros onde a oposição demonstrou força. Para os adversários, o caminho será justamente preservar essas cidades e avançar sobre o interior, território onde o governismo voltou a demonstrar ampla vantagem.

Uma hegemonia que chega à sexta vitória consecutiva

Desde a vitória de Jaques Wagner em 2006, a Bahia não elege um governador fora do campo político liderado pelo PT. Wagner venceu em 2006 e 2010; Rui Costa, em 2014 e 2018; Jerônimo Rodrigues, em 2022 e novamente em 2026.

São seis eleições consecutivas para o governo estadual.

Quando Jerônimo concluir o mandato para o qual acaba de ser reeleito, a Bahia terá passado 24 anos consecutivos sob governos petistas, de janeiro de 2007 a dezembro de 2030.

O resultado de 2026 mostra que essa longevidade não está restrita ao Palácio de Ondina. A eleição simultânea de Rui Costa e Jaques Wagner, a manutenção de ampla maioria na Assembleia, a presença dos aliados entre os deputados federais e, sobretudo, a vitória de Jerônimo em 376 municípios revelam uma estrutura política espalhada por praticamente todo o território baiano.

A oposição preserva força relevante nos maiores colégios eleitorais e amplia sua presença em algumas bancadas, o que impede uma leitura de domínio absoluto. Mas os números das urnas deixam evidente que, duas décadas depois de chegar ao governo estadual, o grupo liderado pelo PT não apenas permanece no poder: chega ao novo ciclo com uma extensa rede de sustentação política e com ativos importantes para a próxima batalha eleitoral, as eleições municipais de 2028.