Reeleito no primeiro turno e vencedor em 376 dos 417 municípios, governador encerra sua própria disputa com ampla capilaridade política; desafio agora é transformar a força da base estadual em votos adicionais para Lula na corrida contra Flávio Bolsonaro
A reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) no primeiro turno das eleições de 2026 não representou apenas a continuidade do grupo político que governa a Bahia há duas décadas. Os números das urnas revelam uma estrutura política com forte presença territorial, capaz de desempenhar papel importante na estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o segundo turno da eleição presidencial.
Jerônimo terminou a disputa com 4.626.509 votos, equivalentes a 55,80% dos votos válidos, contra 3.625.227 votos, ou 43,72%, de ACM Neto (União Brasil). A diferença ficou acima de 1 milhão de votos. Mais relevante para a análise política é a distribuição territorial dessa vantagem: o governador venceu em 376 dos 417 municípios baianos, enquanto Neto prevaleceu em 41. Em 2022, Jerônimo havia vencido em 352 cidades.
A força do interior decidiu
Um dos principais pilares da vitória governista foi a extensa rede de apoios municipais construída ao longo do mandato. Na reta final da campanha, levantamento apontava Jerônimo com apoio declarado de 346 prefeitos, quase 83% dos gestores municipais da Bahia. O resultado das urnas confirmou a capacidade de transferência dessa estrutura: entre esses municípios, o governador foi derrotado em apenas 19.
O desempenho evidencia uma característica histórica da política baiana: embora Salvador e os grandes centros concentrem enorme contingente eleitoral, a soma das pequenas e médias cidades do interior pode produzir uma vantagem difícil de compensar.
Jerônimo também conseguiu reduzir uma vulnerabilidade importante. Em Salvador, onde ACM Neto havia alcançado 64,51% contra 35,49% do petista no segundo turno de 2022, a distância diminuiu substancialmente em 2026: Neto marcou 54,32%, enquanto Jerônimo chegou a 44,51%. Ou seja, mesmo derrotado na capital, o governador conseguiu conter a vantagem do adversário justamente em seu principal território eleitoral.
O resultado também ampliou territorialmente a presença governista. Jerônimo passou de 352 municípios vencidos em 2022 para 376 em 2026, adicionando 24 cidades ao seu mapa eleitoral.
Rui e Wagner completam vitória da chapa
O desempenho governista não ficou restrito ao Palácio de Ondina. A Bahia elegeu os dois candidatos petistas ao Senado. Rui Costa recebeu cerca de 4,33 milhões de votos, enquanto Jaques Wagner chegou a aproximadamente 3,99 milhões, garantindo as duas vagas em disputa. A Bahia foi a única unidade da Federação a eleger dois senadores do PT em 2026.
Na Câmara dos Deputados, o PT também saiu das urnas com a maior bancada partidária da Bahia, elegendo sete deputados federais. O resultado ajuda a dimensionar uma estrutura política que vai além da votação pessoal do governador e reúne prefeitos, parlamentares estaduais e federais, senadores e lideranças municipais.
É justamente essa estrutura que agora fica disponível para uma eleição que ainda não terminou.
A Bahia volta suas forças para Lula
Com Jerônimo reeleito e Rui Costa e Jaques Wagner já eleitos, o grupo governista baiano pode concentrar praticamente toda sua capacidade de mobilização no segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro.
E Lula precisa dela.
Nacionalmente, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 56,1 milhões de votos (47,03%), contra 53,87 milhões (45,16%) de Lula. A diferença foi de aproximadamente 2,23 milhões de votos.
A Bahia, entretanto, apresentou um cenário completamente diferente.
Lula recebeu no estado 5.664.771 votos, ou 66,17% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro conquistou 2.442.585 votos, correspondentes a 28,53%. A vantagem do presidente ultrapassou 3,22 milhões de votos. Além disso, Lula venceu em 413 dos 417 municípios baianos; Flávio conseguiu maioria apenas em Luís Eduardo Magalhães, Buerarema, Itamaraju e Teixeira de Freitas.
Esses números colocam a Bahia novamente no centro da estratégia nacional petista.
O desafio não é apenas manter: é ampliar
Há, porém, um dado que exige atenção do grupo governista. Apesar da ampla vitória estadual, Lula perdeu força em relação ao primeiro turno de 2022. A Bahia foi, em números absolutos, o estado nordestino onde ocorreu a maior redução: foram cerca de 208 mil votos a menos para o presidente na comparação entre os primeiros turnos de 2022 e 2026.
Isso muda a natureza da missão de Jerônimo e de seu grupo.
Não basta preservar a vantagem já conquistada. Para ajudar efetivamente Lula a reverter a diferença nacional, será necessário aumentar a participação eleitoral, reduzir abstenções, recuperar eleitores que votaram no presidente em 2022 e buscar parte dos votos destinados no primeiro turno a outros candidatos.
A própria eleição estadual oferece ao grupo um instrumento poderoso para isso. Foram 4,62 milhões de votos para Jerônimo, mais de 4,3 milhões para Rui Costa e quase 4 milhões para Jaques Wagner, distribuídos por praticamente todo o território baiano. Agora, prefeitos, deputados eleitos, vereadores e lideranças que até domingo estavam mobilizados em suas próprias disputas podem direcionar suas estruturas exclusivamente à eleição presidencial.
Bahia pode novamente ter peso decisivo
A matemática ajuda a dimensionar a importância do estado. A vantagem nacional de Flávio Bolsonaro no primeiro turno ficou em aproximadamente 2,23 milhões de votos; somente na Bahia, Lula abriu mais de 3,22 milhões sobre o adversário. Isso não significa que a Bahia, isoladamente, possa definir a eleição, porque os votos de todos os estados são somados nacionalmente. Mas demonstra o tamanho do contrapeso baiano às vantagens obtidas por Flávio em outras regiões.
O desafio governista, portanto, será transformar a vitória de Jerônimo em capacidade de mobilização para Lula.
A reeleição no primeiro turno deixou o governador sem uma disputa estadual para administrar nas próximas semanas. Rui Costa e Jaques Wagner também já asseguraram seus mandatos. Com isso, três das principais lideranças do PT baiano ficam politicamente livres para percorrer o estado e trabalhar pela reeleição presidencial.
Jerônimo já sinalizou esse movimento após sua vitória, ao afirmar publicamente que a próxima etapa seria trabalhar pelo presidente no segundo turno.
O resultado de domingo mostrou que o grupo governista continua dispondo de uma poderosa rede política no interior e capacidade de chegar à maioria absoluta dos municípios. A questão agora é saber quanto dessa força poderá ser convertida em novos votos.
Em uma eleição presidencial que começou o segundo turno separada por pouco mais de dois milhões de votos, cada ponto percentual conquistado em um estado com o peso eleitoral da Bahia ganha dimensão nacional.
Depois de garantir mais quatro anos no Palácio de Ondina, Jerônimo Rodrigues entra, portanto, em uma segunda campanha. Desta vez, não para defender o próprio mandato, mas para tentar fazer da ampla capilaridade demonstrada nas urnas uma das principais forças da reação de Lula na disputa pela Presidência da República.