Por Fabiano Bastos*
Com Lula e Flávio Bolsonaro sustentados por eleitorados consolidados, a disputa presidencial entra na reta decisiva marcada pelo confronto direto, pela busca dos votos das candidaturas derrotadas e pela tentativa de conquistar os indecisos e os ausentes do primeiro turno.
A fotografia deixada pelas urnas em 4 de outubro revelou um Brasil profundamente dividido, politicamente polarizado e disposto a protagonizar uma das disputas presidenciais mais acirradas de sua história recente. Embora outras candidaturas tenham participado do processo eleitoral, os números demonstraram que a preferência da grande maioria dos brasileiros já estava concentrada em dois projetos políticos antagônicos, representados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL).
Flávio encerrou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos, suficientemente estreita para manter o resultado em aberto e, ao mesmo tempo, demonstrar o tamanho do desafio imposto às duas candidaturas nesta etapa decisiva.
Passados quinze dias do início da campanha do segundo turno, o cenário permanece essencialmente o mesmo. A polarização não apenas resistiu à primeira votação, como ganhou intensidade. Cada movimento de uma candidatura parece provocar uma reação da adversária. Atos públicos, manifestações, agendas políticas, declarações, debates e estratégias de propaganda passaram a integrar uma disputa na qual os dois campos procuram ocupar espaços, demonstrar força e estabelecer suas narrativas perante o eleitorado.
É uma campanha em que uma candidatura marca a outra praticamente em tempo integral. O confronto extrapola os programas eleitorais e alcança as ruas, as redes sociais e os acontecimentos cotidianos da política nacional. Em muitos momentos, a preocupação em responder ao adversário parece disputar espaço com a apresentação de propostas concretas para os problemas do país.
Entretanto, há um aspecto que considero fundamental para compreender o que realmente está em jogo neste segundo turno: o eleitor que votou em Lula ou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno dificilmente mudará sua escolha agora. Evidentemente, existem exceções, mas a forte identificação política e a rejeição ao campo adversário tornam menos provável uma transferência expressiva de votos entre os dois principais concorrentes.
Isso significa que, mais do que convencer quem já tomou partido, as campanhas precisam conquistar aqueles que ainda podem fazer a diferença no resultado final.
Os quatro principais candidatos que ficaram fora da disputa — Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema — receberam, juntos, pouco mais de 9 milhões de votos. Trata-se de um contingente expressivo, capaz de influenciar decisivamente uma eleição marcada por diferenças tão pequenas.
No campo das alianças, Caiado, Zema e Cury anunciaram apoio a Flávio Bolsonaro, enquanto Renan Santos optou por não endossar publicamente nenhum dos finalistas. Lula, por sua vez, recebeu manifestações de apoio de candidaturas e partidos situados à esquerda, entre eles UP, PSTU e PCB.
Mas existe uma diferença importante entre conquistar o apoio de uma liderança política e receber efetivamente os votos de seus eleitores. Voto não é propriedade de candidato, partido ou dirigente. O eleitor tem autonomia para acompanhar uma orientação, fazer uma escolha diferente ou simplesmente não votar em nenhum dos concorrentes.
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta segunda-feira, 19 de outubro, oferece elementos interessantes para essa análise. Entre os eleitores de Caiado, 69,8% declaram preferência por Flávio, enquanto 24,5% optam por Lula. Já entre os que votaram em Cury, o movimento é inverso: 52,1% manifestam apoio ao presidente, contra 42,4% ao candidato do PL. No eleitorado de Renan Santos, a divisão é ainda mais significativa, com 33,5% para Flávio, 31,9% para Lula e 34,6% entre indecisos, brancos e nulos.
Esses números demonstram que as transferências não acontecem de maneira uniforme e reforçam a importância das estratégias de convencimento. Também ajudam a explicar por que as duas campanhas continuam disputando intensamente cada espaço político, mesmo diante de um eleitorado aparentemente tão consolidado.
Há, entretanto, outro universo que merece atenção especial: os brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno. Foram aproximadamente 33,5 milhões de eleitores ausentes, além daqueles que votaram em branco ou anularam seus votos. Uma parcela desse contingente pode participar da definição do próximo presidente.
Na mesma pesquisa AtlasIntel, Lula aparece com 55,7% das preferências entre os que se abstiveram no primeiro turno, contra 40,2% de Flávio. É um indicativo relevante, mas que depende de uma condição fundamental: transformar intenção de voto em comparecimento efetivo às urnas.
A esta altura, as pesquisas eleitorais continuam apresentando um cenário competitivo. A AtlasIntel divulgada nesta segunda-feira aponta Flávio com 49,8% e Lula com 47,6% das intenções de voto, considerando os percentuais apresentados pelo levantamento. A diferença, embora favorável numericamente ao candidato do PL, não elimina as incertezas de uma disputa que segue apertada.
Na minha avaliação, o grande desafio das duas candidaturas nesta reta final não está necessariamente em desconstruir o voto consolidado do adversário, mas em ampliar suas próprias fronteiras eleitorais. Para isso, será preciso ir além da mobilização dos apoiadores mais fiéis, dialogar com segmentos menos identificados com a polarização e oferecer razões convincentes para conquistar a confiança daqueles que ainda não fizeram sua escolha definitiva.
A disputa também coloca à prova a capacidade de mobilização das estruturas partidárias, das lideranças regionais e das campanhas digitais. Afinal, em uma eleição equilibrada, não basta reunir multidões em manifestações ou alcançar milhões de visualizações nas redes sociais. É necessário transformar entusiasmo político em votos válidos no dia da eleição.
Faltando menos de uma semana para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, considero que o Brasil caminha para uma decisão na qual pequenos movimentos do eleitorado poderão produzir grandes consequências políticas.
A liderança conquistada por Flávio Bolsonaro no primeiro turno representa uma vantagem inicial, mas não constitui garantia de vitória. Da mesma forma, Lula dispõe de uma base eleitoral expressiva e de condições para disputar cada voto até o encerramento da votação.
A eleição parece cada vez menos uma disputa para mudar a opinião de quem já escolheu e cada vez mais uma corrida para conquistar quem ainda pode escolher.
E talvez esteja justamente aí o aspecto mais determinante deste segundo turno: enquanto Lula e Flávio mobilizam milhões de brasileiros que dificilmente mudarão de posição, o futuro político do país poderá ser decidido por uma parcela proporcionalmente menor do eleitorado, formada por aqueles que ainda não encontraram, em nenhuma das duas candidaturas, uma razão definitiva para o seu voto.
Em uma eleição tão polarizada, o paradoxo é evidente: os eleitores mais convictos sustentam as candidaturas, mas aqueles que ainda hesitam podem decidir quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos.

Fabiano Bastos — consultor de marketing político

