De Bolsonaro a Lula: benefícios sociais em ano eleitoral reacendem debate sobre os limites entre governar e fazer campanha

Em 2022 e 2026, medidas de impacto econômico e social anunciadas durante disputas presidenciais provocaram questionamentos sobre oportunidade política, responsabilidade fiscal e uso da máquina pública. Apesar das semelhanças, diferenças entre ações implementadas e promessas eleitorais exigem uma análise criteriosa, sem julgamentos distintos conforme o governante.

A proximidade das eleições presidenciais costuma intensificar um debate recorrente na política brasileira: onde termina o exercício legítimo da administração pública e começa a utilização eleitoral das ações de governo? A questão esteve presente em 2022, durante a tentativa de reeleição de Jair Bolsonaro (PL), e voltou ao centro das discussões em 2026, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputando um novo mandato.

Embora representem campos políticos opostos, ambos enfrentaram críticas por iniciativas de forte apelo popular anunciadas em momentos decisivos das campanhas. As circunstâncias, os instrumentos utilizados e os efeitos fiscais, entretanto, apresentam diferenças que precisam ser consideradas antes de qualquer comparação.

Em 2022, o governo Bolsonaro articulou a aprovação da chamada PEC dos Benefícios, que autorizou aproximadamente R$ 41,2 bilhões em despesas extraordinárias. A medida possibilitou elevar o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, ampliar o Auxílio Gás e criar pagamentos emergenciais para caminhoneiros e taxistas, além de contemplar ações relacionadas ao transporte e aos combustíveis.

O governo justificou as medidas pela necessidade de proteger a população dos efeitos da inflação, dos preços elevados dos combustíveis e das dificuldades econômicas decorrentes da pandemia e de fatores internacionais. Eram problemas concretos, que atingiam principalmente as famílias de menor renda.

Por outro lado, críticos apontaram que a ampliação dos benefícios, poucos meses antes da eleição, poderia favorecer eleitoralmente o presidente. Também questionaram a excepcionalidade fiscal adotada para financiar as despesas e o caráter temporário de parte das iniciativas.

Quatro anos depois, o governo Lula passou a enfrentar questionamentos semelhantes. Na reta final da eleição de 2026, anúncios de medidas econômicas e sociais, alguns já encaminhados e outros ainda dependentes de aprovação, ganharam destaque na agenda governamental e no discurso de campanha.

Entre as iniciativas estão propostas de renegociação e perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), ampliação gradual do limite de faturamento da categoria e mecanismos de apoio financeiro aos pequenos negócios. Também foram anunciadas medidas relacionadas aos preços dos combustíveis, à ampliação de programas educacionais e à renegociação de dívidas das famílias.

Outra proposta que ganhou repercussão foi a gratuidade do transporte público aos finais de semana e feriados. Apresentada como instrumento de inclusão social, mobilidade e acesso ao lazer, a iniciativa também levanta questões sobre financiamento, responsabilidades dos entes federativos e sustentabilidade do sistema de transporte.

Na área da saúde, o debate sobre a oferta de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS) acrescentou uma dimensão importante à discussão. A possibilidade de ampliar o acesso a tratamentos para obesidade envolve benefícios potenciais à saúde pública, mas também exige avaliação científica, critérios clínicos, planejamento orçamentário e análise de custo-efetividade. A discussão sobre essa política não deve ser confundida com a existência de uma distribuição universal já implementada.

No conjunto das medidas de 2026, também aparecem o reajuste do Bolsa Família, a ampliação do Pé-de-Meia e mudanças nas regras de jornada de trabalho. São iniciativas com características distintas, que não podem ser tratadas indistintamente como benefícios concedidos de última hora.

Para os defensores do governo Lula, essas ações representam respostas a demandas sociais legítimas. A necessidade de ampliar a proteção à renda, reduzir o endividamento, apoiar pequenos empreendedores e melhorar o acesso a serviços públicos não desaparece durante uma campanha eleitoral.

Para os críticos, entretanto, a concentração de anúncios em um período de disputa acirrada levanta dúvidas sobre o calendário escolhido, a disponibilidade de recursos e a possibilidade de utilização política de medidas financiadas pelo Estado.

O argumento central apresentado pelos dois governos, cada um em seu contexto, possui um ponto em comum: a administração pública não pode simplesmente interromper suas atividades porque o país está em período eleitoral.

Esse entendimento é relevante. Presidentes continuam responsáveis pela condução da economia, pela execução do orçamento e pela prestação de serviços essenciais até o último dia de seus mandatos. Adiar decisões necessárias apenas para evitar interpretações políticas também pode produzir prejuízos à população.

Entretanto, reconhecer essa responsabilidade não elimina a necessidade de fiscalização. Governar durante uma eleição exige cuidado adicional para que decisões administrativas não sejam confundidas com instrumentos de promoção pessoal ou de desequilíbrio da disputa.

Semelhanças políticas, diferenças administrativas

A comparação entre 2022 e 2026 revela uma semelhança evidente: medidas de grande alcance social passaram a ocupar posição de destaque justamente quando os presidentes buscavam renovar seus mandatos.

Mas existe uma distinção fundamental.

Em 2022, parte expressiva das iniciativas de Bolsonaro foi aprovada e executada ainda durante a campanha, mediante autorização constitucional extraordinária. Os benefícios tinham valores, públicos beneficiários e prazos relativamente definidos.

Em 2026, o conjunto apresentado por Lula reúne medidas já adotadas, alterações em políticas existentes e propostas cuja execução depende de legislação, regulamentação ou disponibilidade financeira. Anunciar uma intenção, encaminhar um projeto e efetivamente transferir recursos à população são etapas diferentes, com consequências distintas.

Essa diferenciação impede que a comparação seja reduzida à ideia de que os dois governos praticaram exatamente os mesmos atos.

Também é necessário considerar o contexto econômico de cada período. Inflação, preços internacionais, condições fiscais, endividamento das famílias e necessidades sociais influenciam as decisões governamentais. Uma medida pode ser politicamente conveniente e, ao mesmo tempo, responder a um problema real.

Da mesma forma, uma iniciativa socialmente desejável não está automaticamente livre de questionamentos sobre seu financiamento, sua execução ou sua utilização eleitoral.

O papel da Justiça Eleitoral

A legislação brasileira estabelece limites à atuação dos agentes públicos durante as eleições. O artigo 73 da Lei nº 9.504/1997 prevê restrições destinadas a preservar a igualdade de oportunidades entre os candidatos, inclusive quanto ao uso promocional de benefícios sociais custeados pelo poder público.

Existem também regras específicas para a distribuição gratuita de bens, valores e benefícios em ano eleitoral, com exceções previstas em lei.

A análise jurídica, portanto, não se resume à data de um anúncio ou à popularidade de determinada medida. É necessário examinar sua natureza, base legal, execução orçamentária, circunstâncias e eventual enquadramento nas condutas proibidas.

Por isso, classificar uma ação como eleitoreira no debate político não equivale a comprovar uma irregularidade eleitoral. A responsabilização depende de fatos, provas e aplicação das normas pertinentes.

O desafio da coerência política

Talvez o aspecto mais significativo dessa comparação esteja no comportamento dos próprios atores políticos.

É natural que governos defendam suas iniciativas e que oposições exerçam o papel de fiscalizar, questionar e apresentar alternativas. O problema surge quando critérios utilizados para condenar determinada prática deixam de ser aplicados diante de situações semelhantes envolvendo aliados.

A coerência exige reconhecer que políticas públicas podem ser necessárias independentemente de quem governa. Exige, igualmente, admitir que decisões administrativas devem estar sujeitas ao mesmo escrutínio, seja o presidente de direita, de esquerda ou de qualquer outra orientação política.

O eleitor também precisa distinguir benefícios permanentes de medidas temporárias, propostas de ações efetivamente executadas e promessas de compromissos com financiamento definido.

Mais importante do que o impacto imediato de um anúncio é compreender quem será beneficiado, quanto custará, de onde virão os recursos e quais resultados poderão ser sustentados depois das eleições.

Em 2022, a ampliação dos benefícios não foi suficiente para garantir a reeleição de Bolsonaro. Em 2026, ainda não é possível determinar qual será o peso das iniciativas anunciadas por Lula na decisão dos eleitores.

A comparação entre os dois períodos, portanto, não autoriza conclusões automáticas sobre intenções ou irregularidades. Permite, contudo, identificar um desafio persistente da democracia brasileira: assegurar que a legítima atuação dos governos não comprometa a igualdade da competição eleitoral.

O ponto central não é condenar uma política pública porque foi anunciada durante uma campanha, nem absolvê-la apenas porque beneficia a população. É avaliar sua necessidade, legalidade, transparência, viabilidade financeira e continuidade com o mesmo rigor, independentemente de quem esteja no poder.

Afinal, governos passam, eleições terminam e as necessidades da sociedade permanecem. O verdadeiro compromisso com o interesse público deve ser medido não apenas pelo que se anuncia antes das urnas, mas principalmente pelo que se consegue realizar e sustentar depois delas.