Em uma eleição presidencial marcada pelo equilíbrio e pela polarização, declarações inadequadas, ataques pessoais e informações distorcidas desafiam o discernimento do eleitor. Na reta final, o comportamento dos candidatos também entra em julgamento.
A disputa pela Presidência da República chega aos últimos dias do segundo turno de 2026 em um ambiente de forte polarização, no qual cada declaração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganha repercussão imediata. Em uma eleição tão acirrada, palavras mal colocadas, provocações desnecessárias e acusações sem a devida contextualização podem assumir uma dimensão muito maior do que seus autores imaginam.
A pesquisa Meio/Ideia, divulgada nesta quarta-feira (21), aponta Flávio com 51,1% dos votos válidos e Lula com 48,9%, configurando empate técnico dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais. O levantamento também revela que 16,3% dos entrevistados admitem a possibilidade de mudar o voto, demonstrando que ainda existe uma parcela do eleitorado aberta a reconsiderar sua escolha.
O debate realizado pela Band, no último domingo (18), ofereceu um retrato desse ambiente. Em diversos momentos, propostas para o futuro do país perderam espaço para acusações envolvendo familiares, suspeitas de corrupção e provocações pessoais. A troca de declarações ganhou destaque na cobertura nacional e internacional, evidenciando o clima de tensão da campanha.
Lula, por exemplo, afirmou que Flávio nunca trabalhou e que conhece o transporte público apenas pela literatura. Também advertiu o adversário sobre possíveis consequências judiciais após a perda de imunidade parlamentar. Flávio, por sua vez, acusou o presidente de ter a mentira em seu DNA, declarou que estava esfregando verdades em sua cara e afirmou que o Brasil iria aposentá-lo. São manifestações registradas no confronto televisivo que, independentemente das divergências políticas, permitem questionar se esse é o nível de diálogo esperado de quem pretende governar mais de 200 milhões de brasileiros.
A questão ultrapassa o tom das palavras. Uma checagem publicada pela Folha de S.Paulo identificou informações incorretas ou imprecisas apresentadas pelos dois candidatos durante o debate. Entre os exemplos estão a afirmação de Flávio sobre os gastos com viagens de Lula e da primeira-dama e uma declaração do presidente sobre o crescimento da economia brasileira. A cobrança por informações verificáveis deve alcançar ambos, sem distinção partidária.
Nas redes sociais, entretanto, observa-se frequentemente um comportamento diferente. Declarações que provocariam indignação se partissem do adversário acabam relativizadas quando pronunciadas pelo candidato de preferência. O que é considerado ofensivo de um lado passa a ser tratado como estratégia eleitoral do outro. Essa tolerância seletiva enfraquece o debate público e transforma a necessária fiscalização dos governantes em uma disputa de conveniências.
É legítimo que Lula e Flávio defendam seus projetos, confrontem trajetórias e questionem decisões um do outro. Também é legítimo que seus eleitores tenham convicções firmes. Mas apoiar uma candidatura não significa concordar com todas as suas atitudes, tampouco conceder autorização irrestrita para excessos.
O eleitor que ainda não definiu seu voto tem diante de si uma responsabilidade que vai além da identificação ideológica. Avaliar propostas econômicas, segurança pública, saúde, educação e capacidade de articulação política continua sendo fundamental. Mas observar como cada candidato reage às críticas, apresenta informações, respeita divergências e responde a questionamentos também oferece elementos importantes para uma escolha consciente.
Em uma eleição extremamente polarizada, na qual os eleitores mais identificados com cada candidatura demonstram convicções consolidadas, os indecisos assumem papel decisivo na disputa. E, além das declarações, dos confrontos e das propostas apresentadas, existe uma avaliação que poderá pesar na definição do voto: a satisfação ou insatisfação com o governo que está aí. De um lado, estarão aqueles que consideram positivos os resultados da atual administração e desejam sua continuidade. Do outro, os que avaliam negativamente seus reflexos na economia, na segurança, nos serviços públicos e no cotidiano da população, enxergando na oposição uma possibilidade de mudança. Para muitos eleitores, a escolha poderá representar justamente esse confronto entre continuidade e alternância de poder, sem desconsiderar a confiança depositada em cada candidato.
Afinal, a Presidência da República exige mais do que habilidade para vencer confrontos eleitorais. Exige responsabilidade institucional, disposição para dialogar e compreensão de que o país é formado também por milhões de cidadãos que pensam de maneira diferente.
Na reta final, talvez a reflexão mais necessária não seja apenas sobre o que Lula e Flávio dizem a respeito um do outro, mas sobre aquilo que suas próprias palavras revelam a respeito da maneira como pretendem exercer o poder.
O Brasil continuará existindo depois da eleição, com suas diferenças, desafios e necessidades. E quem assumir a Presidência terá a obrigação de governar para todos, inclusive para aqueles que não lhe confiaram o voto.
Porque, em uma democracia, divergências são naturais, críticas são indispensáveis, mas respeito e responsabilidade jamais deveriam ser opcionais.

