Por Fabiano Bastos*
O “Exército do Lula” evidencia o aprendizado dos adversários do bolsonarismo e expõe uma lição de 2026: protagonismo nas redes não garante capacidade de ampliar votos
Em 2018, Jair Bolsonaro mostrou ao Brasil que uma candidatura com pouco espaço na televisão poderia encontrar nas redes sociais um poderoso caminho até a Presidência. Oito anos depois, o crescimento do “Exército do Lula”, comandado pelo deputado federal André Janones, devolve ao bolsonarismo uma pergunta incômoda: quem ajudou a transformar a comunicação eleitoral brasileira acompanhou a evolução do próprio terreno em que construiu sua força?
O canal ultrapassou 10 milhões de seguidores no WhatsApp em 23 de outubro, dois dias antes do segundo turno. Sua atuação envolvia as chamadas “missões”: orientações para compartilhar conteúdos e ampliar a presença da campanha em outras plataformas. A dimensão da estrutura é expressiva. Sua contribuição exata para o resultado, entretanto, exige cautela: seguidores não equivalem automaticamente a eleitores conquistados.
A virada eleitoral aconteceu. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No segundo, o presidente venceu com 51,79%, diante dos 48,21% do adversário. Esses números demonstram uma mudança no resultado da disputa; isoladamente, não identificam quanto dela decorreu do WhatsApp, das alianças, da avaliação do governo ou da mobilização para comparecer às urnas.
Atribuir toda a vitória a Janones seria reduzir uma eleição nacional a uma ferramenta. Ignorar a mobilização que ele organizou seria cometer o erro inverso.
Para compreender a comparação com 2018, também é preciso acertar o ponto de partida. Donald Trump tornou-se uma referência internacional de comunicação política confrontadora e de forte repercussão digital em 2016. Pesquisa do Pew Research Center identificou, no período analisado, maior reação do público às suas publicações do que às dos concorrentes. Mas a política digital não começou com Trump: campanhas de Barack Obama já utilizavam a internet para estimular doações, recrutamento e compartilhamento.
Bolsonaro adaptou ao contexto brasileiro uma comunicação direta, personalista e de enfrentamento. Apresentava-se como alguém de fora do sistema, embora já acumulasse uma longa trajetória parlamentar. O discurso de ruptura encontrou no ambiente digital uma forma de circulação capaz de compensar limitações na propaganda tradicional.
Um estudo sobre grupos bolsonaristas de WhatsApp em 2018 identificou concentração de postagens em poucos participantes, circulação de links de outras plataformas e ações coordenadas para proteger a imagem do candidato e favorecer sua base parlamentar. A aparente espontaneidade convivia, portanto, com núcleos de organização.
É nesse aspecto que a comparação com o “Exército do Lula” se torna mais reveladora. Nos dois momentos, o apoiador assume uma função que ultrapassa o consumo de propaganda: passa a distribuir mensagens, defender posições e levar o conteúdo político para suas relações pessoais. O celular de cada participante torna-se um ponto de circulação da campanha.
Existe, porém, uma diferença na arquitetura. Em 2018, destacavam-se grupos conectados entre si e articulados com outras redes. O formato de canais do WhatsApp, lançado globalmente em 2023, permite que administradores distribuam atualizações a uma audiência de seguidores. A experiência de Janones combinou essa comunicação central com pedidos de atuação em diferentes plataformas. Trata-se de uma adaptação a ferramentas posteriores, com maior capacidade de reunir seguidores sob um mesmo comando de comunicação.
Na minha avaliação, o mérito estratégico dessa organização está em oferecer tarefas simples e um sentimento de participação. Uma audiência pode acompanhar um candidato durante meses sem agir em favor dele. Uma mobilização orientada procura transformar simpatia em atividade: compartilhar, convidar, responder e conversar.
Isso significa que a direita “dormiu no ponto”? Os dados disponíveis não autorizam afirmar que o bolsonarismo abandonou as redes ou deixou de produzir conteúdo. Tampouco uma derrota presidencial prova ineficiência em todas as dimensões da campanha. A crítica mais consistente é outra: a vantagem construída no passado deixou de ser exclusiva.
Há uma armadilha para qualquer movimento que alcança grande projeção digital. A repetição de mensagens entre pessoas que já concordam pode criar uma sensação de maioria superior à sua capacidade real de convencimento. O aplauso dos seguidores mede a reação de uma audiência; a eleição exige alcançar também quem tem dúvidas, rejeita excessos ou ainda não escolheu um lado.
Nesse sentido, a hipótese de acomodação merece ser discutida como interpretação, sem ser apresentada como diagnóstico comprovado dos bastidores. Se houve confiança excessiva na força histórica do bolsonarismo nas redes, ela terá confundido patrimônio político com vantagem permanente. Os adversários também aprendem, recrutam comunicadores e aperfeiçoam sua organização.
Há ainda uma diferença entre os desafios das duas eleições. Em 2018, Bolsonaro explorava a promessa de ruptura. Em 2026, a mobilização de Lula trabalhava pela continuidade de um presidente em exercício. Uma ferramenta semelhante pode servir a projetos opostos porque sua eficácia depende da conexão entre mensagem, circunstância e público. O formato sozinho não resolve rejeição nem substitui uma proposta convincente.
Também convém evitar uma equivalência automática entre mobilização e irregularidade. Um canal de seguidores não é, por definição, um serviço de disparos automatizados para destinatários que não solicitaram mensagens. O “Exército do Lula” foi alvo de disputa judicial, e Janones negou acusações de desinformação. O tamanho da audiência não comprova uma infração; a popularidade tampouco dispensa a verificação do conteúdo divulgado.
A lição política de 2026 é que nenhum campo ideológico tem propriedade sobre a linguagem digital. A esquerda demonstrou capacidade de organizar uma mobilização de grande escala em um ambiente associado, durante anos, à força do bolsonarismo. Isso exige da direita uma revisão que vá além de procurar um culpado ou um aplicativo salvador.
O pioneirismo de 2018 permanece como um marco. Mas eleições seguintes não são vencidas por direitos adquiridos sobre a inovação. Quem pretende voltar ao poder precisa compreender por que sua mensagem deixou de ser suficiente para formar a maioria.
A pergunta que fica para o bolsonarismo é objetiva: sua comunicação conseguiu conversar com quem precisava ser convencido ou foi mais eficiente em receber o aplauso de quem já estava ao seu lado?
*Fabiano Bastos, consultor de marketing político