Agro baiano cresce, bate recordes e expõe gargalos que desafiam o próximo governo

Da força do algodão irrigado no Oeste à fruticultura do São Francisco, passando pelo cacau, café e pecuária, Bahia consolida protagonismo nacional. Avanço da produção, porém, cobra infraestrutura, energia, crédito, logística e segurança jurídica à altura do campo.

O agronegócio baiano chega à reta decisiva de 2026 mostrando, mais uma vez, que é uma das principais forças econômicas do estado. Os números revelam crescimento, produtividade, capacidade de investimento e diversidade produtiva. Ao mesmo tempo, expõem um contraste que inevitavelmente deverá entrar na agenda eleitoral: o campo avança em velocidade maior do que parte da infraestrutura pública necessária para sustentá-lo.

Um exemplo recente vem do algodão. Na safra 2025/26, a área irrigada da cultura na Bahia cresceu 12%, enquanto o cultivo de sequeiro recuou 7%. A irrigação já responde por aproximadamente 44% dos 425,7 mil hectares plantados, contra 39% no ciclo anterior, segundo dados da Agroconsult divulgados pelo The AgriBiz. A produção baiana de algodão em pluma é estimada em cerca de 982 mil toneladas, mantendo a Bahia como segunda grande força nacional da cultura. 

O avanço traduz bem o estágio alcançado pelo Oeste baiano. Segundo a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia, a soja atingiu na safra 2025/26 produtividade recorde de 71 sacas por hectare, com produção de aproximadamente 9,45 milhões de toneladas em 2,218 milhões de hectares. A estimativa mais recente da Aiba apontou produção total superior a 14 milhões de toneladas no conjunto das principais culturas acompanhadas na região. 

A força do agro também aparece na economia estadual. Dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia mostram que o agronegócio movimentou R$ 118,4 bilhões em 2025, cresceu 4% em termos reais e respondeu por 22,1% da economia baiana. Em outras palavras, aproximadamente R$ 1 de cada R$ 5 gerados no estado esteve relacionado à cadeia do agro. 

Nas exportações, a presença é ainda mais evidente. Em 2025, soja e derivados responderam por 24,1% das vendas externas da Bahia, o algodão e seus subprodutos por 8,1%, cacau e derivados por 4,8% e café e especiarias por 4,3%. Luís Eduardo Magalhães terminou o ano como o maior município exportador do estado, seguido, entre os grandes polos do agro, por Barreiras. 

Uma Bahia rural de várias vocações

O protagonismo não se limita ao Oeste.

No Vale do São Francisco, especialmente no eixo Juazeiro–Casa Nova–Curaçá–Sento Sé, a fruticultura irrigada mantém a Bahia entre as grandes referências brasileiras na produção e exportação de manga e uva. O Vale responde por parcela dominante das mangas brasileiras destinadas ao exterior e transformou condições naturais do semiárido em vantagem competitiva por meio da irrigação e da tecnologia. 

No Sul da Bahia, o cacau recuperou protagonismo e tem projeção de novo crescimento em 2026. O modelo tradicional da Cabruca convive hoje com tecnologia, melhoramento produtivo e uma nova fronteira irrigada surgindo inclusive no Oeste. 

Na Chapada Diamantina, Sudoeste e Extremo Sul, o café ganhou espaço em produtividade e qualidade. A Bahia é o quarto maior produtor brasileiro e apresenta polos distintos de arábica e conilon, com destaque para municípios como Itamaraju, Prado, Barra da Estiva, Porto Seguro e Barra do Choça. 

Já no semiárido, a caprinovinocultura, a agricultura familiar e as cadeias de leite, mandioca, milho, feijão e outras culturas continuam exercendo papel econômico e social decisivo, embora tenham realidade muito diferente daquela encontrada nas propriedades de alta tecnologia do Cerrado.

Registro da cidade de Uauá e suas comunidades pelo Projeto Pró-Semiárido. Março/2017

Essa diversidade deveria ser uma vantagem estratégica para a Bahia.

O gargalo está fora da porteira

Enquanto produtividade e tecnologia avançam dentro das propriedades, o debate passa a ser o que acontece fora da porteira.

No Oeste, produtores continuam apontando demandas por pavimentação de estradas, manutenção de vias vicinais, segurança e fornecimento de energia. A própria Aiba registra essas questões entre as principais reivindicações levantadas junto aos agricultores. A entidade mantém, inclusive, programas próprios e parcerias voltados à recuperação e pavimentação de rotas utilizadas para escoar a produção. 

É uma situação que merece atenção política: um setor que movimenta bilhões não deveria precisar depender cada vez mais de recursos próprios de produtores e associações para suprir deficiências estruturais básicas.

A energia elétrica tornou-se outro ponto estratégico. O crescimento da irrigação exige redes mais robustas, subestações e linhas capazes de acompanhar a expansão das propriedades e das agroindústrias. Em junho, Aiba e Abapa chegaram a entregar aos ministérios de Minas e Energia e da Integração um estudo específico sobre a demanda energética futura do Oeste baiano. 

A expansão do algodão irrigado ajuda a dimensionar a urgência. Há projetos e disponibilidade de outorgas, mas especialistas ouvidos pela Agroconsult apontaram justamente a capacidade da rede elétrica como um dos principais limitadores recentes ao crescimento da irrigação. 

Também há espaço para ampliar a armazenagem. O IBGE registrou capacidade estática de aproximadamente 5,48 milhões de toneladas na Bahia no segundo semestre de 2025. O número deve ser colocado diante de uma produção de grãos estadual que já supera com folga os 12 milhões de toneladas anuais e continua crescendo. Isso não significa que toda a produção precise ser armazenada simultaneamente, mas evidencia a importância de continuar estimulando silos nas propriedades, cooperativas e corredores logísticos. 

Crédito existe, mas precisa chegar melhor ao produtor

Outro desafio é o financiamento.

O Banco do Nordeste informou ter aplicado R$ 23,2 bilhões no Plano Safra 2025/26 em sua área de atuação e dispõe de linhas específicas para irrigação, inovação, armazenagem, conectividade e sustentabilidade. Para a agricultura familiar da Bahia, o Plano Safra anterior reservou R$ 4,3 bilhões. 

O problema não é apenas anunciar recursos. É garantir acesso rápido, juros suportáveis, assistência técnica, menos burocracia e previsibilidade para quem precisa plantar, irrigar, armazenar ou agroindustrializar.

Não por acaso, o próprio Governo da Bahia reconheceu a existência de gargalos históricos no acesso ao Pronaf ao criar, neste ano, uma estratégia de crédito assistido para agricultores familiares nos 27 territórios de identidade. 

Na área tributária, o próximo governo também precisará discutir competitividade. Incentivos não devem significar simplesmente renunciar receita, mas utilizar instrumentos fiscais de forma estratégica para estimular agroindústrias, beneficiamento, armazenagem, irrigação, produção de energia, frigoríficos, processamento de frutas, cacau, café e algodão dentro do próprio estado.

A Bahia não pode se contentar em produzir commodities e mandar matéria-prima embora. Quanto maior a transformação realizada dentro do território baiano, maior a possibilidade de gerar emprego, arrecadação e renda.

O próximo governador terá de enxergar o agro além do discurso

Em ano eleitoral, todos os grupos políticos naturalmente tentarão se aproximar do setor produtivo. Mas o agro baiano já alcançou uma dimensão que exige compromissos concretos.

O próximo governador, independentemente de quem seja eleito, terá diante de si uma agenda clara: recuperar e ampliar os corredores rodoviários do campo; acelerar a infraestrutura energética; estimular irrigação com segurança hídrica e ambiental; ampliar armazenagem; facilitar o crédito; garantir segurança jurídica; melhorar a defesa agropecuária; fortalecer a assistência técnica; estimular cooperativas e agroindústrias e estabelecer uma política tributária capaz de manter a Bahia competitiva diante de outros estados produtores.

É necessário também tratar regiões de maneira diferente. O que o Oeste precisa para soja e algodão não é necessariamente a mesma política necessária para o cacau do Sul, o café da Chapada, a manga e a uva do São Francisco ou a caprinovinocultura do semiárido.

Talvez seja esse o principal desafio do próximo governo: transformar a diversidade do agro baiano em uma verdadeira política estadual de desenvolvimento.

A Bahia já demonstrou que sabe produzir. O crescimento de 12% da área irrigada de algodão é apenas mais um sinal da capacidade de quem está no campo. Agora, cabe ao poder público acompanhar esse ritmo.

Porque, em um estado onde o agronegócio movimenta mais de R$ 118 bilhões por ano, cuidar do agro não pode ser apenas uma pauta de campanha. Precisa ser política de Estado.