Bahia reduz vantagem de Lula e abre nova disputa por protagonismo nacional no segundo turno

Comparação com 2022 mostra Lula perdendo mais de 200 mil votos no estado, enquanto campo de Flávio Bolsonaro avança quase 400 mil; segundo turno coloca lideranças baianas de diferentes grupos diante de uma nova disputa por influência em Brasília

A Bahia continua sendo um dos principais redutos eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas os números do primeiro turno de 2026 revelam uma mudança relevante quando comparados aos da eleição presidencial de quatro anos atrás. Lula permaneceu amplamente majoritário no estado, porém perdeu votos e participação percentual, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) ampliou de maneira significativa o espaço ocupado pelo campo bolsonarista.

Em 2022, Lula recebeu 5.873.081 votos no primeiro turno na Bahia, equivalentes a 69,73% dos votos válidos. Jair Bolsonaro (PL) obteve 2.047.599 votos, ou 24,31%.

Quatro anos depois, Lula terminou o primeiro turno com 5.664.771 votos, ou 66,17%, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 2.442.585 votos, correspondentes a 28,53%.

Na comparação direta, Lula perdeu 208.310 votos e recuou 3,56 pontos percentuais. Flávio, por sua vez, conquistou 394.986 votos a mais do que Jair Bolsonaro havia conseguido no primeiro turno de 2022 e avançou 4,22 pontos percentuais. Embora a Bahia permaneça como território de forte predominância eleitoral de Lula, a distância entre os dois campos diminuiu.

O movimento não pode ser atribuído a uma única liderança ou causa. Ele acompanha uma tendência nacional de redução da votação de Lula em relação ao primeiro turno de 2022, além de fatores como abstenção e a presença de candidaturas alternativas. Na Bahia, Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos, juntos, receberam mais de 435 mil votos.

Há, contudo, elementos particulares no cenário baiano. Durante a campanha estadual, ACM Neto manteve distância da polarização presidencial e evitou transformar a eleição para governador em um confronto direto com Lula. O chamado voto cruzado — eleitor que escolheu Lula para presidente e Neto para governador — apareceu como um dos fenômenos políticos da disputa.

O resultado de Salvador ajuda a dimensionar essa separação. Na capital, Lula obteve 944.358 votos, ou 65,26% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 391.188, ou 27,03%. Para governador, entretanto, ACM Neto venceu na cidade com 769.752 votos e 54,3%, contra 630.677 e 44,5% de Jerônimo Rodrigues.

O peso histórico de 2022

A comparação ganha ainda mais dimensão quando se observa o segundo turno presidencial de 2022. Naquela eleição, a Bahia entregou a Lula 6.097.815 votos, ou 72,12%, contra 2.357.028 votos de Jair Bolsonaro. A diferença favorável ao petista chegou a 3.740.787 votos.

A votação teve repercussão nacional. Rui Costa, então governador, encerrou seu mandato politicamente fortalecido após a eleição de Jerônimo Rodrigues e a expressiva votação presidencial de Lula na Bahia. Pouco depois, foi escolhido para comandar a Casa Civil, tornando-se uma das principais figuras do novo governo federal.

Quatro anos depois, o cenário apresenta diferenças. A Bahia permanece fortemente favorável a Lula, mas sua vantagem percentual diminuiu no primeiro turno. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro cresceu no estado e chegou ao segundo turno nacional depois de obter 56,1 milhões de votos e 47,03% dos válidos, contra 53,8 milhões e 45,16% de Lula.

Segundo turno recoloca a Bahia no tabuleiro nacional

É nesse contexto que ACM Neto, Bruno Reis e João Roma passam a ocupar posições relevantes na articulação do segundo turno na Bahia.

A Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, decidiu apoiar Flávio Bolsonaro. ACM Neto e o prefeito de Salvador, Bruno Reis, participaram das articulações em torno da decisão, enquanto João Roma pertence ao PL, partido do candidato presidencial.

A configuração permite um paralelo político com 2022, embora envolvendo grupos distintos.

Naquela eleição, a expressiva votação de Lula na Bahia ajudou a fortalecer nacionalmente lideranças do PT baiano, particularmente Rui Costa. Agora, caso o resultado do segundo turno leve Flávio Bolsonaro à Presidência, a participação das lideranças baianas que integram seu campo de apoio poderá ganhar peso na reorganização das forças políticas nacionais — especialmente se conseguirem ampliar no estado a votação registrada pelo candidato no primeiro turno.

Isso não significa atribuir diretamente a ACM Neto, Bruno Reis ou João Roma os quase 400 mil votos adicionais obtidos por Flávio na comparação com Jair Bolsonaro em 2022. Os números demonstram o crescimento eleitoral desse campo, mas estabelecer as causas individuais dessa mudança exigiria pesquisas específicas sobre a motivação do eleitor.

O fato objetivo é que a diferença diminuiu.

A Bahia que em 2022 foi fundamental para ampliar a vantagem de Lula volta, portanto, ao centro das atenções nacionais. Desta vez, não apenas pela capacidade do PT de preservar seu maior contingente eleitoral no Nordeste, mas também pela tentativa do campo adversário de reduzir uma diferença historicamente elevada.

Se em 2022 Rui Costa saiu das urnas fortalecido pela votação de Lula e posteriormente ganhou espaço no núcleo central do governo federal, o segundo turno de 2026 poderá medir a capacidade de ACM Neto, Bruno Reis e João Roma de transformar influência política e articulação partidária em votos para Flávio Bolsonaro.

Mais do que definir a Presidência da República, o resultado também ajudará a estabelecer qual será o peso político da Bahia e de suas principais lideranças na composição nacional que surgirá das urnas para 2027.