Entre facções, tiroteios, latrocínios e operações policiais, números expõem a dimensão do desafio: estado concentra cinco das dez cidades mais violentas do país em levantamento recente, enquanto Salvador e RMS registraram 656 tiroteios apenas no primeiro semestre
A campanha eleitoral de 2026 coloca sobre a mesa uma extensa lista de problemas que desafiam a Bahia. Saúde, educação, infraestrutura, geração de emprego e renda, habitação e convivência com a seca estão entre eles. Mas poucos assuntos parecem interferir tanto e de maneira tão imediata na rotina do cidadão quanto a segurança pública.
A violência deixou de ser apenas uma estatística estampada nos noticiários. Para milhares de baianos, ela passou a interferir na escolha do horário para sair de casa, no caminho para o trabalho, na decisão de frequentar determinados bairros e até no desejo de permanecer nas grandes cidades.
É uma espécie de “estado de sítio do medo” — expressão utilizada em sentido figurado, e não jurídico — provocado pela sensação de que, a qualquer momento, o cidadão pode ficar no meio de uma disputa que não é sua.
São confrontos entre grupos criminosos, operações policiais, homicídios, latrocínios, assaltos e disparos de arma de fogo. E as chamadas “balas perdidas”, na prática, encontram pessoas, famílias e histórias que nada têm a ver com a guerra pelo controle do tráfico.
Números colocam a Bahia no centro do problema
Os levantamentos nacionais ajudam a dimensionar a gravidade.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho e baseado nos dados de 2025, colocou cinco municípios baianos entre as dez cidades com mais de 100 mil habitantes e maiores taxas de mortes violentas intencionais do Brasil.
São elas:
Eunápolis — 85,1 mortes por 100 mil habitantes;
Porto Seguro — 71,2;
Simões Filho — 68,1;
Jequié — 67,4;
Juazeiro — 55,8.
Ou seja: metade das dez cidades mais violentas do país, nesse recorte, está na Bahia.
O problema não surgiu agora. Poucos meses antes, o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e utilizando dados referentes a 2024, apresentou cenário ainda mais contundente: seis das dez cidades brasileiras com maiores taxas estimadas de homicídios eram baianas.
Jequié aparecia com 79,4 homicídios estimados por 100 mil habitantes, seguida, entre as baianas presentes no grupo, por Juazeiro, Feira de Santana, Porto Seguro, Simões Filho e Camaçari.
São metodologias e períodos diferentes, portanto os rankings não devem ser confundidos. Mas ambos conduzem a uma constatação difícil de ignorar: a violência letal permanece fortemente concentrada no território baiano.
Salvador: quando o tiroteio entra na rotina
Na capital e Região Metropolitana, os números do Instituto Fogo Cruzado ajudam a compreender outra dimensão da crise: a frequência dos confrontos armados.
Somente entre janeiro e junho de 2026, Salvador e RMS registraram 656 tiroteios ou disparos de arma de fogo — média próxima de quatro ocorrências por dia.
Desses episódios, 366 aconteceram durante ações e operações policiais, equivalentes a 56% de todos os tiroteios registrados no semestre. Segundo o próprio instituto, foi o maior percentual desde o início de sua série histórica na Bahia.
O problema avançou sobre espaços que deveriam representar proteção. O Fogo Cruzado identificou crescimento de 17% nos casos de pessoas baleadas dentro de residências. O número de agentes de segurança baleados também dobrou em relação ao primeiro semestre de 2025.
Julho manteve o alerta ligado.
Foram 118 tiroteios em Salvador e Região Metropolitana, deixando 120 pessoas baleadas. Noventa e três morreram e 27 ficaram feridas. O instituto contabilizou ainda seis chacinas naquele mês, todas registradas durante ações ou operações policiais, com 16 mortos.
Por trás de cada número existe uma consequência social difícil de mensurar: famílias modificando hábitos, comerciantes encerrando atividades mais cedo, moradores evitando determinadas áreas e trabalhadores calculando riscos simplesmente para chegar em casa.
Facções transformam território em poder
Há ainda um componente que torna o problema mais complexo: a expansão e fragmentação das organizações criminosas.
A disputa deixou de ser exclusivamente pelo comércio ilegal de drogas. Em diferentes regiões brasileiras, facções passaram a buscar controle territorial, estabelecendo fronteiras invisíveis entre comunidades e impondo regras próprias.
O cidadão pode, assim, tornar-se refém do lugar onde mora sem jamais ter cometido qualquer crime.
A população fica entre criminosos fortemente armados e a necessária reação do Estado.
Prende-se. Apreende-se. Fazem-se operações. Surgem novos integrantes. Novas lideranças assumem posições. Novos territórios entram em disputa. E o ciclo recomeça.
É o sentimento popular de estar permanentemente “enxugando gelo”.
Os números também mostram redução — e precisam ser considerados
Um diagnóstico responsável, entretanto, precisa apresentar também o outro lado das estatísticas.
Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública apontam que a Bahia terminou 2025 com 3.884 ocorrências de homicídio, latrocínio e lesão dolosa seguida de morte, 588 a menos que em 2024, representando redução de 13,1%.
Segundo a SSP, foi o quarto ano consecutivo de redução.
Salvador registrou 706 mortes violentas em 2025, queda de 22,9% sobre o ano anterior. Na Região Metropolitana, a redução chegou a 21,2%.
A tendência oficial continuou no primeiro semestre de 2026. De acordo com o governo estadual, houve queda de 20,5% nas mortes violentas em comparação com igual período de 2025. Salvador apresentou redução de 29,7%, a Região Metropolitana de 29,6% e o interior, de 16,5%.
São resultados relevantes e seria incorreto ignorá-los.
Mas é exatamente aí que surge uma das grandes questões do debate eleitoral: reduzir a violência partindo de patamares extremamente elevados significa necessariamente devolver ao cidadão a sensação de segurança?
Os rankings nacionais indicam que ainda há um longo caminho.
Fugir da capital já não significa escapar da violência
Durante muito tempo, mudar-se para uma cidade menor representou, para muitas famílias, a expectativa de trocar o trânsito, o custo de vida e, sobretudo, a insegurança das metrópoles por uma rotina mais tranquila.
Esse movimento ainda pode proporcionar maior sensação de tranquilidade em determinadas localidades, mas os números mostram que interior não é sinônimo automático de segurança.
Eunápolis, Porto Seguro, Jequié e Juazeiro estão justamente entre os municípios apontados pelo levantamento mais recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Simões Filho está praticamente às portas de Salvador.
O mapa da criminalidade, portanto, ultrapassou há muito tempo os limites da capital e da Região Metropolitana.
Segurança entra definitivamente na urna
A Bahia chega às eleições de 2026 diante de um paradoxo.
De um lado, o governo apresenta redução consistente de indicadores de mortes violentas e defende investimentos em inteligência, integração policial, operações contra organizações criminosas e programas preventivos.
Do outro, permanecem números nacionais extremamente elevados, cidades baianas no topo dos rankings de violência, confrontos recorrentes, presença de facções e centenas de tiroteios registrados em poucos meses em Salvador e Região Metropolitana.
No meio dessa disputa de narrativas está o cidadão.
É ele quem fecha a porta de casa mais cedo. É o comerciante que observa o movimento antes de baixar ou levantar a porta. É o trabalhador que muda o caminho. É a mãe que acompanha o filho pelo celular. É o morador que aprende quais ruas pode atravessar e em quais horários.
E são essas pessoas que irão às urnas.
Segurança pública não pode ser reduzida a slogans de campanha, tampouco resolvida apenas pelo número de prisões ou pela multiplicação de operações. O enfrentamento ao crime organizado exige inteligência, investigação financeira, controle de armas, sistema prisional capaz de impedir que presídios funcionem como centros de comando, integração entre União, Estado e municípios, prevenção social e presença permanente do poder público nos territórios.
A Bahia conseguiu reduzir parte de seus indicadores. O desafio agora é fazer essa redução chegar à vida real do cidadão.
Porque quando um estado aparece repetidamente nos rankings nacionais de violência, quando facções disputam territórios e quando centenas de tiroteios são registrados em apenas seis meses na sua principal região metropolitana, a discussão deixa de ser simplesmente sobre números.
Passa a ser sobre liberdade.
Liberdade para trabalhar. Para abrir um comércio. Para voltar para casa à noite. Para criar os filhos. Para circular pela própria comunidade.
Em 2026, entre tantas questões que estarão diante do eleitor baiano, talvez uma das mais elementares seja também uma das mais difíceis:
quem será capaz de devolver ao cidadão o direito de viver sem medo?
