Banana na Bahia: tradição, transformação e novos polos de produção no campo

Da histórica associação com o cacau no Sul baiano à expansão da fruticultura irrigada no Vale do São Francisco, a bananicultura revela a diversidade do agronegócio estadual, os desafios enfrentados pelas regiões tradicionais e as oportunidades de desenvolvimento no interior


A banana ocupa um espaço importante na agricultura baiana, tanto pela participação na produção de alimentos quanto pela geração de emprego e renda. Presente em pequenas propriedades familiares, áreas de agricultura empresarial e projetos de fruticultura irrigada, a cultura atravessa diferentes regiões do estado, com sistemas produtivos que vão do cultivo tradicional às lavouras tecnificadas.

Sua história na Bahia também está ligada à cacauicultura. Durante décadas, a bananeira foi utilizada em áreas de formação dos cacauais, contribuindo para o sombreamento das plantas jovens e proporcionando uma fonte complementar de renda aos produtores. Com as transformações enfrentadas pela região cacaueira, essa relação também mudou.
Hoje, compreender a bananicultura baiana exige observar tanto as regiões tradicionais do litoral e dos vales úmidos quanto os novos sistemas de produção desenvolvidos no semiárido, onde a irrigação, a tecnologia e a organização comercial modificaram a geografia da atividade.

Bahia se destaca entre os grandes produtores nacionais

A Bahia está entre os principais estados produtores de banana do Brasil. Segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), com base no levantamento do IBGE, a produção estadual foi estimada em 906 mil toneladas em 2025, crescimento de 4,8% em relação às 864 mil toneladas de 2024.
O desempenho confirma a relevância econômica da cultura, que movimenta uma extensa cadeia produtiva envolvendo agricultores, trabalhadores rurais, transportadores, distribuidores, comerciantes e estabelecimentos de beneficiamento.
Um levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, publicado em 2024 com dados de 2022, apontava o estado na terceira posição nacional em valor de produção, com aproximadamente R$ 1,39 bilhão movimentado pela atividade.
Entretanto, os números estaduais escondem realidades bastante distintas. Enquanto determinadas regiões ampliaram a produtividade por meio da irrigação e da modernização das lavouras, outras enfrentam dificuldades relacionadas à renovação dos bananais, às doenças, ao custo de produção e à comercialização.

Sul da Bahia: a banana que cresceu à sombra do cacau

A história da banana no Sul da Bahia está diretamente associada à expansão da lavoura cacaueira, responsável pela formação econômica de municípios como Ilhéus, Itabuna, Uruçuca, Itajuípe, Camacan e diversos outros integrantes da região.

Nas propriedades rurais, o plantio de bananeiras entre as fileiras de cacau era uma prática tradicional, especialmente durante a implantação e renovação dos cacauais. A bananeira proporcionava sombreamento provisório às plantas jovens e, simultaneamente, permitia ao agricultor comercializar os cachos, obtendo renda enquanto aguardava a produção do chamado ouro marrom.

A importância econômica desse consórcio foi reconhecida em estudos técnicos da Embrapa e da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), que desenvolveram recomendações para o cultivo conjunto de banana e cacau, visando reduzir os custos de implantação dos cacauais.

É importante distinguir, entretanto, o consórcio banana-cacau do sistema cabruca tradicional. Na cabruca, o sombreamento permanente é proporcionado principalmente pelas árvores remanescentes da Mata Atlântica. A bananeira pode integrar o sistema produtivo, mas sua utilização como sombra provisória é especialmente associada à formação e renovação de lavouras.

Com a crise da vassoura-de-bruxa, iniciada no final da década de 1980, a economia cacaueira sofreu profundas transformações. O endividamento dos produtores, a redução dos investimentos e a deterioração de parte das lavouras também comprometeram as atividades agrícolas complementares.

Estudo publicado na Revista de Política Agrícola, com análise histórica de 1974 a 2021, identificou queda de aproximadamente 65% na produção de amêndoas de cacau na região estudada, evidenciando a dimensão da crise que atingiu a economia rural sul-baiana.

Nesse contexto, a banana cultivada em associação com o cacau perdeu parte de sua antiga função econômica em propriedades que deixaram de renovar ou manejar adequadamente os cacauais. A transformação, entretanto, não significa o desaparecimento da bananicultura regional.

A atividade permanece presente em propriedades diversificadas e em lavouras comerciais independentes. O desafio está em recuperar sua importância como alternativa de renda, mediante renovação dos bananais, assistência técnica, manejo fitossanitário e melhores condições de comercialização.

Não há, nos levantamentos consultados, uma série estatística específica que permita quantificar quanto da redução histórica da banana consorciada decorreu diretamente da crise do cacau.


Baixo Sul e Vale do Jiquiriçá: tradição que permanece viva

O Baixo Sul continua sendo uma das principais referências da bananicultura baiana, especialmente nos municípios de Wenceslau Guimarães e Teolândia, onde a atividade possui forte participação na economia rural.

Levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, baseado nos dados municipais do IBGE de 2022, colocou Wenceslau Guimarães e Teolândia entre os cinco maiores produtores estaduais em valor de produção, ao lado de Bom Jesus da Lapa, Juazeiro e Curaçá.

A região reúne condições naturais favoráveis ao cultivo, como temperaturas elevadas, umidade e disponibilidade hídrica em diferentes localidades. A produção é realizada tanto em propriedades familiares quanto em estabelecimentos comerciais de maior escala.

No Vale do Jiquiriçá, municípios como Mutuípe, Ubaíra, Jiquiriçá e Laje também mantêm tradição na fruticultura, com a banana integrando a diversificação agrícola regional.

A importância da atividade é confirmada por estudo de planejamento econômico do governo baiano, que identifica a banana entre os produtos relevantes da agricultura do Vale do Jiquiriçá, com crescimento de 24,7% no indicador de produção analisado com base em dados do IBGE de 2023.

O principal desafio dessas regiões está em ampliar a produtividade sem comprometer a viabilidade econômica dos pequenos produtores. Estradas rurais, assistência técnica, organização cooperativa, padronização dos frutos e redução das perdas após a colheita são fatores decisivos para a competitividade.

Extremo Sul: diversificação agrícola e oportunidades

No Extremo Sul, a bananicultura integra uma economia rural marcada pela presença da pecuária, da silvicultura, da cacauicultura e de outras atividades agrícolas.

Municípios como Itamaraju, Prado, Eunápolis, Porto Seguro e Teixeira de Freitas integram uma região com condições climáticas que permitem o desenvolvimento de diferentes sistemas de fruticultura, embora a banana não apresente a mesma concentração produtiva observada nos principais polos do Baixo Sul e do Vale do São Francisco.

A proximidade de mercados consumidores, o turismo e a possibilidade de diversificação das propriedades representam oportunidades para o cultivo comercial.

Para o produtor, entretanto, a expansão depende de planejamento, disponibilidade de água, escolha adequada das variedades, controle de doenças e estrutura de distribuição.

Bom Jesus da Lapa: a força da fruticultura irrigada

Se no Sul da Bahia a banana construiu parte de sua história associada ao cacau, em Bom Jesus da Lapa a cultura encontrou na irrigação as condições para se transformar em uma das principais atividades econômicas do município.

O Projeto Formoso, desenvolvido na região do Médio São Francisco, consolidou um importante polo de fruticultura irrigada, com destaque para a produção comercial de banana.

A disponibilidade de água, a adoção de tecnologias agrícolas e a organização da produção possibilitaram o desenvolvimento de lavouras em escala comercial, com abastecimento de mercados em diferentes regiões brasileiras.

Segundo dados do IBGE referentes a 2024, divulgados pela prefeitura, Bom Jesus da Lapa ocupava a primeira posição na produção de banana da Bahia.

O reconhecimento da atividade ganhou um novo capítulo em fevereiro de 2026, quando foi divulgada a conquista do registro de Indicação Geográfica de Procedência para a banana de Bom Jesus da Lapa.

De acordo com as informações que fundamentaram o reconhecimento, a banana representa 89% da área cultivada do Projeto Formoso e responde por 97% do Valor Bruto da Produção do perímetro irrigado.

Os números demonstram a dimensão econômica da cultura e sua importância para a geração de empregos, a circulação de mercadorias e a renda das famílias ligadas à atividade.

Chapada Diamantina, Oeste e Vale do São Francisco

Na Chapada Diamantina, a diversidade de altitudes, temperaturas e disponibilidade de água permite diferentes atividades agrícolas. A bananicultura integra a produção de frutas e alimentos em localidades com condições adequadas de cultivo, especialmente em propriedades diversificadas e áreas com acesso à irrigação.

A região apresenta oportunidades para ampliação da produção comercial, embora sua participação na bananicultura estadual seja menos expressiva do que a dos polos consolidados do Baixo Sul e do Médio São Francisco.

No Oeste baiano, conhecido nacionalmente pela produção de soja, milho e algodão, a banana representa uma alternativa de diversificação em áreas com disponibilidade hídrica e infraestrutura agrícola. A expansão da cultura, entretanto, exige investimentos específicos, sobretudo em irrigação, manejo e logística.

Já no Norte do estado, o Vale do São Francisco reúne importantes áreas produtoras, com destaque para Juazeiro e Curaçá, municípios que figuravam entre os cinco maiores produtores baianos em valor de produção no levantamento estadual baseado nos dados do IBGE de 2022.

A experiência dessas localidades demonstra que a banana pode ser cultivada em ambientes distintos, desde que as condições de solo, temperatura e disponibilidade de água sejam adequadas.

Os desafios para o futuro da bananicultura baiana
Apesar de sua importância econômica, a produção de banana enfrenta desafios que exigem atenção de toda a cadeia produtiva.

O controle de doenças, a renovação de lavouras envelhecidas, o acesso ao crédito, os custos de irrigação e energia, a disponibilidade de mão de obra e as perdas no transporte estão entre os fatores que influenciam a rentabilidade dos produtores.

A comercialização também merece atenção especial. Por ser uma fruta altamente perecível, a banana exige cuidados desde a colheita até a chegada ao consumidor. A ausência de estruturas adequadas de classificação, embalagem, armazenamento e transporte pode reduzir o valor recebido pelo agricultor.

Na região cacaueira, a recuperação da banana como atividade complementar representa uma possibilidade de diversificação econômica, especialmente em áreas de renovação dos cacauais e em sistemas agroflorestais tecnicamente planejados.

No Baixo Sul e no Vale do Jiquiriçá, o fortalecimento da agricultura familiar, a assistência técnica e a melhoria da infraestrutura podem contribuir para ampliar a competitividade dos produtores tradicionais.

Nos polos irrigados, o desafio está em conciliar produtividade, eficiência no uso da água, sustentabilidade ambiental e acesso a mercados.

A Bahia reúne condições para desenvolver a bananicultura em diferentes sistemas de produção, preservando sua tradição agrícola e ampliando as oportunidades de geração de renda no interior.

Da banana que ajudou a sombrear os jovens cacauais do Sul baiano aos extensos bananais irrigados de Bom Jesus da Lapa, a trajetória da cultura demonstra que o desenvolvimento agrícola do estado não depende de uma única região ou modelo produtivo, mas da capacidade de aproveitar suas diferentes vocações territoriais.

A banana, presente na alimentação cotidiana dos brasileiros, também representa trabalho, renda e oportunidades para milhares de famílias que vivem do campo.