Natural de Mundo Novo, médico baiano fez de Minas Gerais sua terra de adoção, tornou-se grande pecuarista, dirigente cooperativista e colaborador da consolidação do Parque de Exposições de Governador Valadares; suas propriedades alcançaram Minas e Espírito Santo e, em São Vítor, praça e busto perpetuam sua memória
Algumas trajetórias pessoais acabam se confundindo com a própria história dos lugares onde foram construídas. A do médico baiano João Fernandes Leão, conhecido por familiares, amigos, trabalhadores e produtores rurais simplesmente como Dr. Leão, é uma delas.
Natural de Mundo Novo, na Bahia, Dr. Leão deixou seu estado ainda jovem e construiu no Sudeste brasileiro uma história que ultrapassaria os limites da medicina. Passou pelo Espírito Santo, chegou a Minas Gerais por Resplendor e posteriormente fez de Governador Valadares o principal centro de sua vida profissional, empresarial e familiar.
Médico por formação, encontrou na terra e na criação de gado uma segunda vocação. Ao longo das décadas, tornou-se fazendeiro, pecuarista e proprietário de extensas áreas rurais, formando um patrimônio que alcançaria diferentes regiões de Minas Gerais e também o Espírito Santo.
Não se tratava apenas de possuir fazendas.
Dr. Leão passou a integrar a própria liderança do setor agropecuário do Vale do Rio Doce, chegando à presidência de uma das instituições mais representativas da atividade rural regional e participando do ambiente que ajudou a consolidar Governador Valadares como referência pecuária.
Sua história deixou marcas nas propriedades, na pecuária, no cooperativismo, na família e até na geografia de Governador Valadares.
Resplendor: onde começou a história mineira
Antes de Governador Valadares, houve Resplendor.
Foi por ali, segundo a memória preservada pelos descendentes, que Dr. João Fernandes Leão iniciou efetivamente sua trajetória em Minas Gerais. Ali exerceu medicina e adquiriu sua primeira propriedade rural no estado, começando uma relação com a terra que se tornaria uma das grandes paixões de sua vida.
Mesmo depois de transferir para Governador Valadares o centro de sua vida, Resplendor jamais teria perdido seu lugar afetivo na história do médico.
Uma lembrança familiar traduz bem essa ligação.
Em sua propriedade existia uma fonte de água mineral, cuja água Dr. Leão apreciava de maneira especial. Segundo relatos dos descendentes, mesmo morando posteriormente em Governador Valadares, mantinha o hábito de levar semanalmente para sua residência a água proveniente da propriedade de Resplendor, destinada ao próprio consumo.
Pode parecer um detalhe pequeno diante da dimensão do patrimônio que construiria, mas é justamente esse tipo de memória que ajuda a revelar o homem por trás do personagem público.
Resplendor também teria importância decisiva em sua vida pessoal.
Foi ali, segundo a memória familiar, que Dr. Leão conheceu Leonila Costalonga, a Nila, que trabalhava como sua auxiliar de enfermagem no consultório. A relação profissional daria lugar posteriormente a uma união afetiva. Nila se tornaria sua companheira e mãe de três de suas filhas.
Décadas depois, documentos judiciais confirmariam os nomes de João Fernandes Leão e Leonila Costalonga Leão unidos também pela história patrimonial deixada à família. Em publicação judicial recente, os dois espólios aparecem representados pela inventariante Magda Leão.
Resplendor foi, portanto, muito mais do que uma passagem: na memória de seus descendentes, foi o começo da vida mineira, da primeira propriedade rural e também de uma nova etapa familiar.
O médico que se tornou fazendeiro
A documentação histórica ajuda a demonstrar que medicina e atividade rural já caminhavam juntas na vida de João Fernandes Leão no início dos anos 1960.
Registros daquele período já o apresentam simultaneamente como médico e fazendeiro, evidenciando que sua atuação como proprietário rural estava consolidada.
Era uma época de profundas transformações no Vale do Rio Doce. A pecuária se expandia, novas áreas eram incorporadas à produção e Governador Valadares consolidava sua importância como centro econômico de uma extensa região do leste mineiro.
Foi nesse ambiente que Dr. Leão construiu parte expressiva de seu patrimônio.
Segundo informações preservadas por seus descendentes e por pessoas que conviveram diretamente com a família e frequentaram suas propriedades, suas terras alcançavam São Vítor e extensas áreas circunvizinhas em Governador Valadares, Resplendor e, além da divisa mineira, Cotaxé, em Ecoporanga, no Espírito Santo.
Na pecuária, a memória familiar o registra como criador de Nelore e Guzerá, duas das mais importantes raças zebuínas na formação da pecuária brasileira.
Mais do que proprietário rural, Dr. Leão tornou-se criador conhecido e respeitado no meio pecuário regional.
Da fazenda à liderança do cooperativismo
Uma das evidências documentais mais importantes encontradas durante esta pesquisa está na própria história da Cooperativa Agropecuária Vale do Rio Doce.
O levantamento histórico de seus dirigentes registra João Fernandes Leão como o terceiro presidente da instituição, precedido por Luiz de Castro Côrtes e Afonso Bretas Sobrinho.
A informação acrescenta uma dimensão importante à sua biografia.
Dr. Leão não permaneceu restrito aos limites de suas propriedades. Ocupou posição institucional de liderança entre os produtores rurais de uma região que transformava a agropecuária em um dos pilares de sua economia.
Sua passagem pela presidência da Cooperativa ajuda a explicar o prestígio que seu nome alcançou no Vale do Rio Doce.
Era o médico que também se tornara fazendeiro, criador e dirigente rural.
Parque de Exposições: a pecuária de Valadares ganhava sua casa
Outro capítulo dessa trajetória está relacionado ao Parque de Exposições de Governador Valadares, equipamento que se tornaria símbolo da força agropecuária regional.
A memória da família coloca Dr. Leão entre os produtores que participaram e contribuíram financeiramente para a implantação do Parque de Exposições, iniciativa construída com forte mobilização da classe rural.
Uma fonte histórica sobre os pioneiros de Governador Valadares ajuda a contextualizar essa lembrança. Ao narrar a implantação do parque, registra que o empreendimento dependeu da mobilização de grande número de benfeitores e colaboradores. Foram tantos que a publicação optou por não enumerá-los, observando, entretanto, que o reconhecimento ficou registrado no próprio recinto, através de placas instaladas nos pavilhões com os nomes daqueles que colaboraram com o projeto.
É justamente nesse contexto que a memória familiar situa Dr. João Fernandes Leão.
Segundo seus descendentes, um dos pavilhões do Parque de Exposições passou a levar seu nome, reconhecimento de sua contribuição e de sua atuação na pecuária regional.
Enquanto a documentação nominal dessa homenagem ainda merece ser recuperada nos arquivos da entidade ou no próprio parque, o contexto histórico encontrado reforça algo já demonstrado por outras evidências: Dr. Leão fazia parte da geração de produtores que ajudou a organizar e fortalecer institucionalmente a atividade agropecuária de Governador Valadares.
Não por acaso, seria também presidente da Cooperativa Agropecuária Vale do Rio Doce.
São Vítor e as grandes extensões de terra
Nenhum lugar, entretanto, parece guardar tantas marcas dessa trajetória quanto São Vítor, em Governador Valadares.
Segundo a memória preservada pelos descendentes de Dr. Leão, suas propriedades abrangiam extensas áreas no entorno da localidade e avançavam pela região em direção ao Alto de Santa Helena.
A dimensão dessas terras permanece viva nas recordações familiares. Parte das propriedades foi sendo partilhada pelo próprio Dr. Leão entre seus herdeiros ainda em vida, dando origem posteriormente a diferentes parcelas pertencentes aos descendentes.
Havia, porém, outra característica importante.
De acordo com os relatos familiares, Dr. Leão destinava áreas de suas propriedades para permitir que familiares de funcionários e trabalhadores das fazendas construíssem suas moradias. Com o passar dos anos, pequenos núcleos foram recebendo novos moradores e crescendo.
Na família, essas localidades eram conhecidas por uma expressão simples e reveladora: “os patrimônios”.
O termo possui significado histórico no interior brasileiro. “Patrimônio” foi frequentemente utilizado para designar pequenos núcleos populacionais surgidos dentro ou a partir de propriedades rurais, antes ou independentemente de sua posterior organização administrativa.
É importante, entretanto, fazer uma distinção.
São Vítor já estava formalmente constituído como distrito desde 1953. Portanto, a documentação atualmente disponível não permite atribuir a Dr. Leão a fundação administrativa do distrito.
O relato dos descendentes aponta para outra participação: a disponibilização de terras, instalação de famílias e contribuição para a ocupação e expansão de áreas relacionadas às suas propriedades.
O nome Dr. Leão permaneceu no território
Há um detalhe contemporâneo particularmente interessante que dialoga com essa memória.
Na região rural entre São Vítor e Alto de Santa Helena, “Dr. Leão” permaneceu como referência territorial, aparecendo inclusive na identificação de pontos/localidades utilizados pelo transporte distrital.
Separadamente, documentos oficiais de Governador Valadares registram também uma Rua Dr. João Fernandes Leão.
Isoladamente, essas referências não permitem reconstruir a extensão original das propriedades. Confrontadas com a memória dos descendentes, entretanto, ajudam a compreender como o nome do antigo fazendeiro permaneceu associado ao território.
E existe uma homenagem ainda mais eloquente.
Uma praça, um busto e uma homenagem permanente
No coração de São Vítor está a Praça Dr. João Fernandes Leão.
Ali foi instalado um busto em homenagem ao médico e pecuarista.
A placa existente no monumento fornece uma informação precisa: a homenagem foi inaugurada em 28 de junho de 2012, durante a administração da então prefeita de Governador Valadares Elisa Costa, tendo Edmilson Soares como secretário municipal de Obras.
O monumento foi registrado fotograficamente em outubro de 2024 por Fabiano Bastos, durante visita a São Vítor. A fotografia autoral utilizada nesta reportagem permite identificar claramente o busto e sua placa de inauguração.
A existência da praça possui ainda confirmação fotográfica independente recente: imagem realizada em novembro de 2025 registra a Praça Doutor João Fernandes Leão, em São Vítor.
Mais do que denominar um logradouro, erguer um busto no centro da comunidade demonstra a permanência de sua memória no lugar onde construiu parte expressiva de sua trajetória.
Décadas se passaram, as propriedades foram divididas e gerações se sucederam. O nome, porém, permaneceu.
Cotaxé: Dr. Leão atravessa a divisa de Minas
Outro capítulo importante dessa história foi construído no Espírito Santo.
Dr. João Fernandes Leão tornou-se proprietário de terras na região de Cotaxé, em Ecoporanga, território marcado historicamente por complexos conflitos fundiários.
Diferentemente de alguns aspectos preservados apenas pela memória familiar, sua presença em Cotaxé encontra sólido respaldo documental.
Pesquisa acadêmica da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) registra a transferência de uma área para o médico João Fernandes Leão, de Governador Valadares, dentro da sucessão de proprietários daquele território.
O episódio precisa ser compreendido dentro da complexa história fundiária de Cotaxé e não autoriza atribuir a Dr. Leão os conflitos ocorridos anteriormente à sua entrada na área.
Mas comprova algo importante para sua biografia: na década de 1960, seus investimentos rurais já haviam ultrapassado Minas Gerais e alcançado o norte capixaba.
Também em Cotaxé, os descendentes preservaram a memória das terras de Dr. Leão como um dos chamados “patrimônios” da família e relatam a disponibilização de áreas para pessoas relacionadas aos trabalhadores das propriedades.
A natureza e extensão dessas cessões ainda dependem de pesquisa nos registros imobiliários de Ecoporanga. Por isso, devem ser compreendidas, neste momento, como parte da memória familiar e não confundidas com a criação administrativa de Cotaxé.
Bahia, Espírito Santo e Minas: uma trajetória construída em três estados
A própria vida familiar de João Fernandes Leão acompanhou essa movimentação geográfica.
Segundo informações preservadas pelos descendentes, seu primeiro casamento foi com a baiana Suzete Figueiredo Leão.
O casal também viveu durante determinado período em Vitória, no Espírito Santo, onde, segundo a família, nasceu um dos filhos, Maurício Fernandes Leão.
Da primeira união nasceram Antonio Guilhardo, Ana Maria, Isaura, Lúcia, Maurício e Ricardo.
Registros judiciais relacionados posteriormente ao patrimônio de João Fernandes Leão permitem confirmar documentalmente parte dessa descendência, com Antonio Guilhardo Leão e Ana Maria Leão Marques Valente aparecendo em processos sucessórios.
Posteriormente, em Resplendor, entraria em sua história Leonila Costalonga, a Nila.
Segundo a memória familiar, Nila trabalhava como auxiliar de enfermagem de Dr. Leão em seu consultório. Da convivência profissional nasceu uma relação que se transformaria em união familiar.
Dessa união nasceram, segundo os descendentes, Magda, Celene e Gerusa.
A documentação judicial contemporânea fornece uma confirmação importante dessa história: em processo de 2026 aparecem simultaneamente o Espólio de João Fernandes Leão e o Espólio de Leonila Costalonga Leão, ambos representados pela inventariante Magda Leão.
É uma evidência da continuidade familiar e patrimonial muitas décadas depois da formação daquele conjunto de propriedades.
Patrimônio dividido, legado preservado
Com o passar dos anos, parte das grandes extensões de terra foi sendo repartida.
Segundo seus descendentes, Dr. Leão realizou ainda em vida divisões e transferências de propriedades para os herdeiros. Depois de sua morte, o processo sucessório acrescentaria novos capítulos à história patrimonial da família.
Mas medir sua trajetória apenas pelo tamanho das fazendas seria reduzir a dimensão do personagem.
João Fernandes Leão exerceu medicina.
Transformou-se em pecuarista.
Criou Nelore e Guzerá.
Investiu em terras.
Expandiu sua atividade de Minas Gerais para o Espírito Santo.
Participou da organização da classe produtora.
Chegou à presidência da Cooperativa Agropecuária Vale do Rio Doce.
Esteve ligado à geração que ajudou a consolidar o Parque de Exposições de Governador Valadares.
Formou uma numerosa família.
E estabeleceu relação tão profunda com determinadas comunidades que seu nome continuou sendo utilizado como referência geográfica décadas depois.
Da pequena Mundo Novo para a história do Vale do Rio Doce
Talvez seja justamente esse contraste que torne sua trajetória tão singular.
A história começa em Mundo Novo, no interior da Bahia, com um jovem que escolheu a medicina e deixou sua terra natal para construir a vida longe dali.
Passou pelo Espírito Santo.
Mas foi em Resplendor que começou seu capítulo mineiro.
Ali clinicou, adquiriu sua primeira propriedade rural e desenvolveu uma ligação com a terra que carregaria pelo restante da vida. Ali estava a fonte cuja água, segundo os descendentes, continuaria levando semanalmente para beber mesmo depois de morar em Governador Valadares.
E foi também em Resplendor que conheceu Nila.
Depois veio Governador Valadares.
Em algum momento dessa caminhada, o médico encontrou definitivamente o pecuarista.
O pecuarista tornou-se fazendeiro de grandes extensões.
O fazendeiro tornou-se liderança rural.
O dirigente chegou à presidência de uma instituição representativa da agropecuária do Vale do Rio Doce e seu nome ficou associado também à história do Parque de Exposições.
Sua trajetória atravessou três estados e diferentes gerações.
O patrimônio material inevitavelmente sofreu transformações. Terras foram divididas. Herdeiros seguiram seus próprios caminhos. As fazendas de ontem convivem hoje com uma região completamente diferente daquela encontrada pelo jovem médico baiano.
Algumas marcas, entretanto, resistiram ao tempo.
Estão nos documentos históricos.
Nos registros da Cooperativa Agropecuária Vale do Rio Doce.
Na história do Parque de Exposições.
Na história fundiária de Cotaxé.
Na velha propriedade de Resplendor preservada na memória familiar.
Nos descendentes.
Nas antigas fazendas.
Na referência territorial ao nome Dr. Leão.
E, sobretudo, em São Vítor.
Ali, a centenas de quilômetros de Mundo Novo, existe uma praça que leva seu nome.
No centro dela, um busto reproduz sua imagem.
E na base do monumento uma placa registra para as futuras gerações:
Dr. João Fernandes Leão.
É uma homenagem que talvez sintetize melhor do que números de hectares, quantidade de cabeças de gado ou relação de propriedades o tamanho do legado daquele jovem médico que saiu da Bahia, encontrou em Resplendor sua porta de entrada em Minas, fez de Governador Valadares sua terra de adoção e transformou medicina, pecuária, trabalho e família nos pilares de uma história que ainda permanece viva no Vale do Rio Doce.
Dr. João Fernandes Leão construiu patrimônio. Mas, sobretudo, construiu uma trajetória capaz de sobreviver a ele — preservada na memória da família e gravada definitivamente na terra onde escolheu viver.
Legenda da foto principal: Busto em homenagem a Dr. João Fernandes Leão na praça que leva seu nome, em São Vítor, distrito de Governador Valadares (MG). O monumento foi inaugurado em 28 de junho de 2012. Foto: Fabiano Bastos/Arquivo pessoal – outubro de 2024.
Nota de apuração: esta reportagem foi construída a partir do cruzamento de documentação histórica e judicial, registros públicos, pesquisa acadêmica da Universidade Federal do Espírito Santo, fontes sobre a história rural de Governador Valadares e relatos de descendentes e pessoas que conviveram com a família. Informações de natureza familiar ainda não localizadas em documentação pública foram apresentadas como memória dos descendentes, preservando a distinção entre tradição oral e fatos documentalmente comprovados.
Esta é a versão que considero pronta para publicação. A nova passagem sobre Resplendor humaniza bastante o perfil, enquanto a ligação com o Parque de Exposições acrescenta uma terceira dimensão institucional a Dr. Leão: além de grande produtor e presidente da Cooperativa, ele participou do ambiente de organização da pecuária que ajudou a fazer de Governador Valadares uma referência regional.
Foto: Fabiano Bastos

