Efeito chapa pode embaralhar disputa pelo Senado na Bahia e abrir espaço para Roma e Coronel

Histórico das eleições baianas mostra força do voto associado à chapa majoritária; com ACM Neto competitivo na corrida pelo governo, João Roma e Ângelo Coronel apostam na reta de campanha para reduzir vantagem de Rui Costa e Jaques Wagner

A disputa pelas duas vagas da Bahia no Senado Federal promete caminhar lado a lado com a eleição para o governo do Estado. Embora Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT) apareçam atualmente à frente nas pesquisas para o Senado, o histórico recente das eleições baianas e o cenário acirrado entre ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT) colocam uma variável importante na corrida: a capacidade das chapas majoritárias de transferirem votos para seus candidatos ao Senado.

Na oposição, João Roma (PL) e Ângelo Coronel (Republicanos) formam a dupla de candidatos ao Senado apoiada por ACM Neto. E é justamente o desempenho do ex-prefeito de Salvador que pode se transformar em um dos principais ativos dos dois ao longo da campanha.

Levantamentos recentes para o Governo da Bahia têm mostrado uma disputa apertada. Enquanto algumas pesquisas colocam ACM Neto numericamente à frente, outras apontam empate técnico entre ele e Jerônimo Rodrigues, demonstrando que a corrida pelo Palácio de Ondina permanece competitiva.

O Senado ainda tem vantagem petista

Quando a análise se concentra exclusivamente no Senado, Rui Costa e Jaques Wagner começam a campanha em vantagem. Levantamentos recentes colocam os dois petistas nas primeiras posições, seguidos por João Roma e Ângelo Coronel.

Os números, contudo, também revelam elementos que podem influenciar a evolução da disputa, entre eles os índices de rejeição, a parcela de eleitores ainda sem definição e, principalmente, o fato de que em 2026 estarão em jogo duas vagas para o Senado, permitindo ao eleitor escolher dois candidatos.

Esse cenário aumenta a importância da estratégia do chamado voto casado, especialmente à medida que a campanha para governador se intensifica e as chapas passam a apresentar conjuntamente seus candidatos nas diferentes regiões do estado.

A história recente reforça o peso da chapa

O argumento do chamado “efeito chapa” encontra precedentes importantes na Bahia.

Em 2010, Jaques Wagner foi reeleito governador e os dois candidatos ao Senado vinculados à sua chapa, Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB), conquistaram as duas vagas disponíveis.

Em 2014, Rui Costa venceu o Governo da Bahia no primeiro turno. Na mesma eleição, Otto Alencar (PSD), integrante de sua chapa majoritária, conquistou a vaga para o Senado.

O fenômeno ficou ainda mais evidente em 2018. Rui Costa foi reeleito governador com ampla votação e os dois candidatos ao Senado de sua coligação, Jaques Wagner e Ângelo Coronel, conquistaram conjuntamente as duas cadeiras em disputa.

Já em 2022, quando apenas uma vaga estava disponível, Otto Alencar, integrante do grupo político que elegeu Jerônimo Rodrigues governador, renovou seu mandato no Senado.

O histórico não estabelece uma regra automática — as eleições para governador e senador são independentes e o eleitor pode dividir seus votos. Mas demonstra que, na Bahia, o desempenho da chapa majoritária vencedora tem coincidido, nos últimos ciclos eleitorais, com resultados favoráveis aos candidatos ao Senado ligados ao mesmo grupo político.

Roma e Coronel apostam na força de ACM Neto

É justamente nesse ponto que reside uma das principais possibilidades de crescimento de João Roma e Ângelo Coronel. Se ACM Neto conseguir manter e transformar em votos a competitividade registrada nas pesquisas para governador, sua campanha poderá intensificar o pedido pelo voto completo na chapa: governador e os dois candidatos ao Senado.

A situação de Coronel possui ainda uma particularidade. Ele próprio foi beneficiário dessa dinâmica em 2018, quando chegou ao Senado integrando a chapa de Rui Costa e Jaques Wagner. Oito anos depois, disputa a renovação do mandato em outro campo político, agora ao lado de ACM Neto e João Roma.

Roma, presidente estadual do PL, busca ampliar sua presença especialmente no interior e consolidar o eleitorado identificado com a oposição ao atual governo estadual. Coronel, por sua vez, acrescenta à chapa a estrutura política e municipal construída ao longo de sua trajetória e do mandato no Senado.

Disputa permanece aberta

A fotografia atual das pesquisas mostra Rui Costa e Jaques Wagner em vantagem na corrida pelas duas cadeiras, mas ainda não permite considerar o resultado definido. João Roma e Ângelo Coronel entram na fase decisiva tentando reduzir essa distância e, sobretudo, vincular suas candidaturas ao desempenho de ACM Neto.

A história eleitoral recente da Bahia oferece elementos concretos para essa estratégia. Em diferentes eleições, candidatos ao Senado associados à chapa vencedora para o governo também conseguiram chegar às urnas fortalecidos e conquistar suas vagas.

Com duas cadeiras disponíveis, uma disputa polarizada pelo Governo da Bahia, índices relevantes de rejeição e uma parcela do eleitorado ainda em processo de definição, a eleição para o Senado permanece aberta.

Nesse contexto, é real a possibilidade de os candidatos que hoje aparecem atrás nas pesquisas avançarem durante a campanha e até chegarem às primeiras posições, especialmente se houver a consolidação de uma vitória de ACM Neto, candidato ao governo que apoia Roma e Coronel e que aparece numericamente à frente em parte dos levantamentos mais recentes.

Não se trata de uma transferência automática de votos, nem de uma consequência obrigatória de eventual vitória para o governo. Mas, se o desempenho apontado por essas pesquisas se confirmar nas urnas e vier acompanhado de uma campanha eficiente pelo voto casado, João Roma e Ângelo Coronel poderão encontrar espaço para encurtar a distância atualmente existente e disputar efetivamente as duas vagas com Rui Costa e Jaques Wagner.

A eleição baiana, portanto, entra em sua fase decisiva com dois cenários diretamente conectados. A batalha pelo Palácio de Ondina poderá ter influência importante sobre a composição das duas cadeiras que a Bahia renovará no Senado Federal. E, diante do histórico das últimas eleições no estado, o resultado dessa disputa ainda pode reservar mudanças significativas até a abertura das urnas.