Com a proibição das apostas de quota fixa no Brasil, especialista em ludopatia chama atenção para o pós, alertando para o cuidado com quem já desenvolveu relação compulsiva com o jogo
As bets podem deixar de aparecer na tela do celular, mas isso não significa que o desejo de apostar desapareça junto com o aplicativo. Com a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, o país entra em uma nova etapa da discussão sobre o fenômeno das apostas online. A questão agora é saber o que fazer com quem já perdeu o controle sobre o próprio comportamento, já que a regulação do setor e a psicoeducação do apostador nas diretrizes do Jogo Responsável sempre foram apontados como o único caminho robusto para lidar com a complexidade da situação.
A proibição foi estabelecida por meio de Medida Provisória (MP) assinada pelo Governo Federal em 25 de setembro. Paralelamente às medidas de restrição, o poder público manteve iniciativas de cuidado em saúde mental. Desde agosto, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas, além de atendimento presencial na rede pública. Um recorde.
A oferta ganha importância porque agora o Brasil sabe que o transtorno do jogo é uma condição de saúde. Entre os sinais que merecem atenção estão o excesso de interesse, a dificuldade para reduzir ou mesmo interromper o ciclo de apostas, ansiedade e irritação, alterações nos relacionamentos e no humor, e o comprometimento do orçamento e desempenho no trabalho. O Ministério da Saúde orienta que a pessoa procure ajuda profissional diante desses sinais.
Um alerta
Na avaliação de Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC), o desafio do pós-proibição está justamente em olhar para além do acesso às plataformas. “Não basta perguntar se a pessoa ainda consegue acessar uma bet. É preciso entender o que acontecia com ela quando apostava e, principalmente, o que acontece agora que não pode mais apostar”, pontua.
Para o especialista, a interrupção repentina da atividade pode ser delicada para quem apostava diariamente e já havia incorporado o jogo ao cotidiano. Nesses casos, não se trata apenas de retirar uma plataforma do alcance, mas de compreender o espaço que a aposta ocupava na vida daquela pessoa. “Quem reconhece que está sentindo muita falta das apostas, é melhor buscar ajuda. Não fique sozinho e em silêncio. Converse sobre isso com alguém”, orienta Cristiano.
Ainda segundo o psicólogo, os sinais mais importantes aparecem justamente no comportamento cotidiano: isolamento, irritabilidade, impaciência para falar sobre o assunto ou para estar com outras pessoas e dificuldade de concentração estão entre os indicadores que merecem atenção. “A avaliação profissional é indicada pela quantidade de tempo que esses sintomas ocupam no dia a dia, bem como pela intensidade ou gravidade deles”, explica.
Risco de migração
Outro ponto de atenção é a possibilidade de migração para a ilegalidade. Sem acesso às plataformas regulares, pessoas que apresentam comportamento compulsivo podem procurar sites clandestinos ou outras modalidades de jogo. Após a proibição, o Ministério da Justiça e Segurança Pública identificou grupos e canais no Telegram que continuavam divulgando apostas e jogos de cassino online. Em 27 de setembro, o órgão informou ter encontrado 43 grupos e canais ativos relacionados à divulgação dessas atividades, reunindo cerca de 212 mil membros. Na mesma data, uma força-tarefa dos Ministérios da Justiça e da Fazenda anunciou o bloqueio de 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas.
Para Cristiano, a migração da demanda pode não só ocorrer para outras plataformas de jogo, como também para outros comportamentos compulsivos. “Como toda compulsividade possui uma base em comum, a detecção passa pela ampliação repentina e intensa de um novo comportamento, como comer, beber, fumar, comprar, malhar ou trabalhar”, afirma.
O profissional recomenda atenção especialmente quando uma nova atividade passa a ocupar espaço desproporcional na rotina. “Onde sobra, falta. Onde há excesso, há escassez. Esse é o balanço da compulsão”, resume.
Diante desse cenário, a orientação é evitar julgamentos e cobranças. Para Cristiano, familiares e pessoas próximas devem criar um ambiente no qual o indivíduo se sinta seguro para falar sobre o que está enfrentando.
O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico e, quando necessário, avaliação psiquiátrica. O Ministério da Saúde informa que o cuidado pode ser realizado por equipe multiprofissional e inclui atendimentos individuais e em grupo, além de outras estratégias conforme a necessidade de cada pessoa. O SUS também oferece teleatendimento especializado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares. O acesso pode ser feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, que disponibiliza um autoteste e direciona o usuário para o atendimento.
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