Instalação no Museu do Mar expõe “contaminação invisível” por microplásticos no corpo humano

Obra de Dávila Kess transformou dados científicos em experiência e provocou debate sobre os impactos da indústria têxtil na saúde e no meio ambiente

No dia 6 de agosto, o Museu do Mar Aleixo Belov, em Salvador, recebeu a instalação “As Fibras que Nos Atravessam”, da pesquisadora Dávila Kess. A obra propôs uma experiência sensorial e crítica que conectou arte, ciência e denúncia para refletir sobre a presença silenciosa, e perigosa, das microfibras sintéticas nos oceanos e no corpo humano.

A instalação partiu de uma pergunta provocadora: “oceano, corpo e plástico: o que te atravessa?”. Estudos recentes comprovam que essas partículas, originadas em grande parte da indústria têxtil, já foram encontradas no sangue, na placenta e até no esperma humano, além de se acumularem nos mares e atravessarem a cadeia da vida.

Durante a palestra que acompanhou a instalação, Dávila afirmou: “ que me move é o desejo de transformar dados científicos em afeto, em experiência. Não basta saber que há plástico no corpo, é preciso sentir a violência disso. As Fibras que Nos Atravessam é sobre esse incômodo que não passa, que está dentro da gente. É uma chamada ao sensível e ao político.”

O advogado tributarista Carlos Brasileiro destacou o caráter inovador e necessário da iniciativa. “Fiquei muito feliz de ver uma pessoa com a potência de Dávila debatendo um tema tão importante e inovador para Salvador, denunciando algo que não estamos dando a atenção necessária. Também é uma iniciativa de vanguarda. Precisamos materializar esses dados de uma forma sintética para termos uma iniciativa coletiva na sociedade civil para termos incentivos por parte da legislação e por parte das instituições para que as nossas roupas não sejam o nosso próprio veneno.”

Para Adriana Muniz, socióloga e gestora ESG, a discussão é urgente: “Estamos literalmente carregando os resíduos da nossa escolha de consumo dentro do nosso corpo. Por isso, é urgente falar sobre o impacto da indústria da moda. Não se trata apenas de estilo, mas de saúde, de meio ambiente, de futuro. Precisamos repensar o que consumimos, como produzimos e para onde tudo isso vai. Porque já está claro: não existe ‘fora’ quando jogamos algo fora. Ter participado dessa apresentação reforçou em mim a urgência de propagar cada vez mais esse assunto. Estamos vestindo contaminação e nem percebemos.”

Com entrada gratuita, a ação fez do Museu do Mar um espaço de criação, escuta e provocação, ampliando o debate sobre o impacto da sociedade de consumo na saúde do planeta e da vida humana.