O cacau está no sangue: uma família atravessa o apogeu, a crise e o renascimento da lavoura cacaueira baiana

Da Tararanga que marcou a infância de Jorge Amado ao patrimônio construído pelo coronel José Alves Costa, a trajetória do braço Costa Pepê atravessa mais de um século de riqueza, crise, endividamento e reconstrução da cacauicultura no Sul da Bahia

Poucas culturas agrícolas se confundem tanto com a história econômica, social e cultural da Bahia quanto o cacau. Durante décadas, ele ergueu fortunas, cidades, casarões, empresas e famílias inteiras. Financiou uma sociedade própria no Sul do estado, produziu os chamados “coronéis do cacau” e forneceu a Jorge Amado o cenário humano para algumas das páginas mais conhecidas da literatura brasileira.

Depois vieram a crise, a vassoura-de-bruxa, o endividamento e a decadência de uma estrutura econômica que parecia indestrutível.

Mas o cacau não desapareceu.

Mudaram as técnicas, as variedades, as propriedades e as gerações. E uma das trajetórias familiares que ajudam a compreender esse movimento é a dos descendentes de Carmem Costa Pepê, filha do coronel José Alves Costa.

Esta história atravessa o apogeu do cacau, passa por Jorge Amado, chega à Fazenda Tararanga, alcança a crise provocada pela vassoura-de-bruxa, encontra os controversos financiamentos para recuperação das lavouras e chega aos dias atuais, quando uma nova geração continua produzindo cacau na Bahia.

É uma história feita de documentos, propriedades, memória familiar e personagens que viveram pessoalmente as diferentes fases de uma cultura que transformou o Sul da Bahia.

Antes dos Costa Pepê, a Tararanga de Jorge Amado

Um dos pontos de partida dessa história é a Fazenda Tararanga.

A ligação da propriedade com a família de Jorge Amado está documentada. A Fundação Casa de Jorge Amado registra que, em 1917, a família estava novamente nas matas do cacau, desta vez na Tararanga, no Sequeiro do Espinho, localidade onde se formaria Pirangi, atual município de Itajuípe. Foi nesse universo que parte da infância do futuro escritor transcorreu.

Uma pesquisa acadêmica da Universidade do Estado da Bahia também registra que João Amado de Faria e sua família adquiriram a Tararanga em 1917 e retomaram ali a atividade cacaueira.

Entre Ilhéus, Pirangi e as fazendas, o menino Jorge conheceu de perto o ambiente que décadas depois apareceria transformado em literatura: coronéis, trabalhadores, disputas por terras, jagunços, riqueza, violência, ascensão social e poder.

A Tararanga, portanto, não é apenas uma propriedade rural. É também um lugar ligado à formação das memórias de um dos maiores escritores brasileiros.

José Alves Costa e o mundo dos coronéis do cacau

Em algum momento posterior, a Tararanga passou para o patrimônio do coronel José Alves Costa.

Aqui surge uma história preservada pela tradição familiar dos Costa Pepê, mas cujo documento definitivo de transferência ainda está sendo procurado.

Segundo relatos transmitidos dentro da família, João Amado teria contraído uma dívida com José Alves Costa, e a Tararanga acabou incorporada ao patrimônio do credor. A natureza jurídica dessa transferência — compra e venda, dação em pagamento, adjudicação ou outra modalidade — ainda precisa ser estabelecida através dos antigos registros imobiliários.

Há, entretanto, documentação histórica independente comprovando que José Alves Costa pertencia à sociedade econômica do cacau daquele período.

Na pesquisa Os Coronéis do Cacau: raízes do mandonismo político em Ilhéus – 1890-1930, Gustavo Falcón inclui José Alves Costa entre os personagens daquele universo e o identifica como “plantador, comerciante”.

A informação converge com a memória preservada pela família: José Alves Costa constituiu expressivo patrimônio a partir da economia cacaueira, com propriedades rurais no Sul da Bahia e investimentos imobiliários em Salvador.

Décadas depois, uma das propriedades mais simbólicas desse patrimônio, a Tararanga, chegaria às mãos de sua filha Carmem Costa Pepê.

Carmem Costa Pepê e uma nova fase da Tararanga

Segundo a memória familiar, após a morte de José Alves Costa, ocorrida entre o final dos anos 1960 e o início da década seguinte, a Fazenda Tararanga foi destinada a Carmem Costa Pepê, no processo de sucessão patrimonial do pai.

A documentação integral do inventário e do formal de partilha ainda está sendo localizada, razão pela qual a data exata da transferência permanece em investigação.

Foi sob Carmem, seu marido, Rafael Pepê Júnior, e o filho José Henrique Costa Pepê, conhecido como Henrique Pepê, que a Tararanga viveria outra fase marcante.

A propriedade tornou-se uma fazenda de referência.

Segundo registros e relatos preservados pela família, em seu período de maior produtividade a Tararanga chegou à marca de aproximadamente 21 mil arrobas de cacau.

Era a representação de uma época em que o cacau parecia oferecer segurança econômica quase permanente. Carmem se destacava diretamente na atividade e, segundo o acervo e a memória familiar, chegou a receber reconhecimento nacional da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil como “Cacauicultora do Ano”, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

A localização do registro original dessa premiação ainda integra a pesquisa documental desta reportagem.

Mas existe outra participação de Carmem que deixou registros públicos: seu envolvimento no processo de recuperação genética da lavoura.

Materiais clonais identificados como T-10, T-11, T-42, T-46, T-Roxa e FT-500 foram associados à Fazenda Tararanga no contexto dos trabalhos de recuperação e seleção de materiais resistentes e produtivos.

Era a resposta a uma tragédia que já havia mudado completamente o mundo do cacau.

A vassoura que varreu uma economia

A chegada da vassoura-de-bruxa ao Sul da Bahia, no final dos anos 1980, representou uma ruptura.

O fungo Moniliophthora perniciosa atingiu justamente uma região cuja economia dependia profundamente do cacau. Produção, valor das propriedades e capacidade financeira dos produtores despencaram.

Mas seria simplista atribuir toda a crise exclusivamente à doença. A cacauicultura já enfrentava problemas relacionados a preços, produtividade, crédito, manejo e conjuntura econômica. A vassoura-de-bruxa encontrou uma atividade vulnerável e acelerou dramaticamente sua desestruturação.

Fazendas antes altamente produtivas perderam grande parte de sua capacidade. Famílias que haviam construído patrimônio durante gerações passaram a conviver com dívidas. Trabalhadores perderam empregos. Municípios cuja economia dependia diretamente do cacau sentiram o impacto.

A Tararanga também foi atingida.

Da produção de milhares de arrobas, veio uma queda brutal.

A tentativa de salvar as fazendas — e a dívida

Na década de 1990, o governo federal estruturou o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira. Financiamentos foram concedidos para permitir que produtores recuperassem suas propriedades seguindo pacotes tecnológicos e orientações técnicas.

A iniciativa, entretanto, acabaria produzindo uma das maiores controvérsias da história recente da cacauicultura baiana.

O endividamento dos produtores passou a ser um dos fatores que limitaram novos investimentos. Produtores sustentaram judicialmente que contrataram financiamentos para executar procedimentos tecnicamente recomendados, sem que os resultados esperados fossem alcançados.

A discussão atravessou décadas e chegou aos tribunais, envolvendo revisão de dívidas, garantias hipotecárias, responsabilidade e capacidade de pagamento.

A dimensão do problema pode ser percebida pelo fato de que, décadas depois, a situação financeira de produtores atingidos pela crise da vassoura-de-bruxa continuou sendo objeto de renegociações e iniciativas legislativas.

Carmem e Rafael também entraram nessa história

A crise financeira não ficou distante da família Costa Pepê.

Documentos oficiais comprovam que o Banco do Brasil ajuizou na comarca de Itajuípe a execução nº 0000008-52.2007.805.0119, tendo como executados Carmem Costa Pepê e Rafael Pepê Júnior.

Outro documento, publicado no Diário Oficial da União em fevereiro de 2023, identifica o Espólio de Carmem Costa Pepê como mutuário principal e o Espólio de Rafael Pepê Júnior como mutuário da operação bancária nº 490.300.524.

Ainda está sendo investigada a correspondência documental entre essa operação e a execução judicial, assim como quais bens foram oferecidos em garantia.

É justamente aqui que surge uma das coincidências mais impressionantes dessa história.

Segundo a memória transmitida pelos Costa Pepê, a Tararanga teria passado da família de João Amado para José Alves Costa em decorrência de uma dívida. Muitas décadas depois, Carmem e Rafael enfrentariam o endividamento decorrente de uma época marcada pela tentativa de recuperar a lavoura devastada pela vassoura-de-bruxa.

A documentação imobiliária histórica ainda será necessária para determinar se a própria Tararanga foi hipotecada e qual foi o destino da eventual garantia. Por isso, essa coincidência permanece como uma extraordinária linha de investigação histórica, sem antecipar uma conclusão que os registros ainda precisam comprovar.

A crise também virou cinema

A dimensão humana dessa transformação foi registrada no documentário “Os Magníficos”, dirigido pelo cineasta francês radicado na Bahia Bernard Attal.

Produzido pela Ondina Filmes em coprodução com IRDEB/TVE Bahia, o documentário de 52 minutos reconstrói a ascensão, decadência e superação da sociedade cacaueira através de personagens que viveram a passagem da riqueza para uma realidade completamente diferente.

A obra é dividida simbolicamente em três momentos: “A Soberba”, “A Decadência” e “A Superação”.

A própria TV Brasil descreve o filme como um retrato da queda vertiginosa do padrão social de personagens ligados ao cacau e da necessidade de reconstruírem suas vidas.

Carmem Costa Pepê, Rafael Pepê Júnior e José Henrique Costa Pepê integram, segundo os registros e a memória familiar, essa história registrada por Attal.

O filme transformou uma tragédia econômica em memória audiovisual. E talvez sua maior força esteja exatamente em mostrar que a crise do cacau não pode ser contada apenas em toneladas, arrobas ou cifras.

Ela atingiu pessoas.

Do cacau para Salvador

A riqueza gerada pela lavoura também ultrapassou as fronteiras do Sul da Bahia.

Entre os patrimônios associados pela família a José Alves Costa está o Edifício Cidade de Ilhéus, no Comércio, em Salvador.

Construído pela Odebrecht na década de 1950, o edifício permanece como testemunho de uma época em que os recursos originados no cacau ajudavam a financiar investimentos urbanos na capital baiana.

Na fachada encontra-se uma obra de Carybé, agregando ao prédio importância arquitetônica e artística.

Há também uma história preservada oralmente no braço Costa Pepê: José Alves Costa teria contratado a construção e realizado um pagamento de grande volume antecipadamente, em dinheiro, proporcionando importante fluxo financeiro à então jovem construtora.

O relato foi transmitido ao autor desta reportagem diretamente por José Henrique Costa Pepê e, anos depois, voltou a ser discutido com o jornalista Marcelo Pita, que conhecia a história a partir de pesquisas relacionadas à trajetória empresarial da Odebrecht.

A localização da referência bibliográfica original sobre esse episódio permanece entre os objetivos desta pesquisa.

O edifício, porém, permanece no Comércio de Salvador como testemunho material de uma época em que a riqueza produzida nas fazendas de cacau se transformava também em patrimônio urbano.

É uma espécie de monumento de concreto ao dinheiro produzido pelos frutos do cacau.

O cacau se reinventa

A história, entretanto, não terminou com a vassoura-de-bruxa.

Pesquisa, seleção genética, clonagem, manejo, renovação das plantações e, posteriormente, a valorização do cacau de qualidade abriram um novo caminho para a região.

A antiga lógica baseada essencialmente em grandes volumes passou a dividir espaço com produtividade, genética, rastreabilidade, sustentabilidade e fabricação de chocolates de origem.

A mesma região que viu fazendas praticamente abandonadas voltou a produzir cacau e passou a fabricar chocolates reconhecidos dentro e fora do país.

Não significa que todos os problemas tenham sido resolvidos. O endividamento histórico ainda produz consequências, enquanto crédito, produtividade, assistência técnica e sucessão rural continuam sendo desafios.

Mas o cacau sobreviveu.

O cacau permanece no sangue

E é justamente aí que esta história volta ao seu ponto de partida.

Mais de um século depois de José Alves Costa construir parte de seu patrimônio nas terras cacaueiras, o braço Costa Pepê permanece ligado ao cacau.

Hoje, Andrea Pepê, bisneta do coronel José Alves Costa, ao lado do marido, mantém produção de cacau na região de Ubaíra, dando continuidade, em outro território e em outro tempo, a uma relação familiar iniciada muitas gerações atrás.

Mudou a cidade. Mudaram as técnicas. Mudou o mercado. Passaram-se gerações.

Mas permaneceu uma relação que atravessou riqueza e decadência, doença e recuperação, dívida e recomeço.

Talvez por isso uma frase consiga resumir melhor do que qualquer estatística essa história:

“O cacau está no sangue.”

Não como simples referência à herança familiar, mas como síntese de uma trajetória que acompanha a própria história da cacauicultura baiana.

De José Alves Costa à Tararanga de Carmem; de Rafael e Henrique Pepê à devastação da vassoura-de-bruxa; das dívidas aos materiais genéticos resistentes; da memória registrada em Os Magníficos à nova geração que continua plantando.

Mais do que uma cultura agrícola, o cacau construiu uma civilização no Sul da Bahia.

E a história dos Costa Pepê guarda, geração após geração, as marcas de tudo o que ela foi capaz de produzir: riqueza, poder, literatura, tragédia, resistência e recomeço.