[Opinião] 2022 não é 2026: por que a história pode não se repetir na eleição da Bahia

Quatro anos depois, ACM Neto e Jerônimo Rodrigues voltam ao centro da disputa, mas chegam a outubro em condições diferentes; entre o peso da gestão, a reorganização das forças políticas e um ciclo de 20 anos no poder, a Bahia se aproxima de uma eleição que pode novamente contrariar prognósticos

OPINIÃO

Cada eleição tem sua própria história. As circunstâncias mudam, alianças são reconstruídas, adversários de ontem podem estar no mesmo palanque amanhã e o eleitor, mesmo diante de personagens conhecidos, não necessariamente repete escolhas anteriores.

Ainda assim, eleições passadas oferecem referências importantes para interpretar o presente. E talvez nenhum exercício seja hoje mais interessante na política baiana do que comparar 2022 com 2026.

Há quatro anos, ACM Neto, Jerônimo Rodrigues e João Roma protagonizavam uma disputa que terminou de maneira muito diferente daquela que as pesquisas indicavam durante boa parte da campanha.

Em agosto de 2022, praticamente no mesmo ponto do calendário eleitoral em que estamos agora, o Datafolha mostrava ACM Neto com 54%, Jerônimo com 16% e João Roma com 8%. Naquele momento, Jerônimo ainda era desconhecido por uma parcela expressiva do eleitorado.

A campanha virou aquele cenário de cabeça para baixo.

Jerônimo cresceu, beneficiou-se da enorme força eleitoral de Lula na Bahia e chegou ao primeiro turno à frente de ACM Neto. Depois, venceu o segundo turno por 52,79% a 47,21%.

Em números absolutos, foram 4.480.464 votos para Jerônimo contra 4.061.059 para Neto: diferença de 419.405 votos.

Foi uma vitória apertada diante de um universo superior a oito milhões de votos válidos e que mostrou, sobretudo, a capacidade de transformação de uma campanha eleitoral.

A primeira lição de 2022, portanto, permanece válida: pesquisa é fotografia, não urna.

A segunda talvez seja ainda mais importante em 2026: para saber se a história pode se repetir, é preciso compreender quais condições produziram aquela virada.

E muitas delas já não são as mesmas.

O desconhecido de 2022 agora carrega um governo nas costas

Jerônimo chegou à eleição passada praticamente como uma folha em branco para grande parte dos baianos.

Não tinha rejeição eleitoral consolidada porque parcela significativa da população ainda não possuía elementos suficientes para julgá-lo.

Quatro anos depois, a situação é outra.

Jerônimo não precisa mais ser apresentado ao eleitor. Precisa ser avaliado por ele.

E é exatamente aí que 2026 começa a se afastar de 2022.

Um levantamento sobre as promessas assumidas pelo governador na eleição passada mostrou que, das 92 propostas acompanhadas, 33 foram consideradas integralmente cumpridas, 37 parcialmente cumpridas e 22 ainda não cumpridas até o final do primeiro semestre deste ano. Assim, pouco mais de um terço das promessas monitoradas havia sido integralmente concluído.

Isso não significa ausência de entregas. O governo construiu e modernizou escolas, realizou investimentos em infraestrutura, saúde e outras áreas e apresenta realizações que certamente ocuparão espaço importante na campanha.

Mas uma eleição de reeleição não compara apenas realizações. Compara, sobretudo, expectativa e resultado.

Na saúde, uma das promessas emblemáticas de 2022 foi zerar a fila da regulação. Quase quatro anos depois, a permanência do tema entre as principais preocupações e embates políticos demonstra a complexidade do problema e oferece munição à oposição.

Na segurança pública, os números oficiais registraram redução de 13,1% nas mortes violentas em 2025, resultado destacado pelo governo como o melhor em 19 anos. É um dado relevante e que precisa ser considerado.

Mas estatística e percepção social nem sempre caminham na mesma velocidade. Segurança permanece como tema de enorme sensibilidade, especialmente diante da presença constante no noticiário de episódios envolvendo violência, facções criminosas, confrontos e domínio territorial.

Na educação, o governo apresenta como vitrine a construção e modernização de unidades escolares. Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre desempenho, aprendizagem e os critérios de aprovação dos estudantes. A discussão passa, portanto, a não ser apenas quantas escolas foram entregues, mas quais resultados educacionais estão sendo produzidos dentro delas.

Há ainda outro componente que inevitavelmente estará no debate eleitoral: o volume de operações de crédito e empréstimos autorizados ou contratados pelo Estado. Para o governo, representam capacidade de investimento e financiamento de obras estruturantes. Para a oposição, serão utilizados para questionar endividamento, prioridades e o legado financeiro para os próximos exercícios.

São discussões que simplesmente não existiam para Jerônimo em 2022.

Naquele momento, ele defendia a continuidade de um projeto político.

Agora, além de defendê-lo, precisa apresentar o balanço do próprio governo.

O candidato da expectativa tornou-se o candidato da prestação de contas.

Lula continua sendo Lula — mas 2026 não é 2022

Também seria um erro analisar a eleição baiana sem considerar o fator Lula.

Em 2022, sua candidatura representava o retorno ao Palácio do Planalto em uma eleição nacional fortemente polarizada contra Jair Bolsonaro. Na Bahia, associar Jerônimo a Lula foi uma das decisões mais eficientes daquela campanha.

O efeito foi evidente.

Em 2026, Lula continua eleitoralmente muito forte no Nordeste e permanece provavelmente como o maior ativo político de Jerônimo.

Mas chega à eleição depois de mais um mandato presidencial, submetido ao desgaste natural de quem governa e também ao julgamento do eleitor.

Isso modifica a equação.

Jerônimo continuará tentando aproximar a disputa estadual do debate nacional. ACM Neto, naturalmente, buscará fazer o contrário: transformar outubro num julgamento sobre a Bahia e os quatro anos do atual governo estadual.

Quem conseguir impor ao eleitor a pergunta que deverá ser respondida na urna poderá conquistar vantagem decisiva.

A oposição de 2026 também não é a de 2022

Existe outra diferença fundamental.

João Roma obteve mais de 738 mil votos para governador em 2022, equivalentes a 9,08% dos votos válidos.

Naquela eleição, portanto, uma parcela expressiva do eleitorado conservador e bolsonarista tinha candidatura própria e estava fora do campo de ACM Neto.

Em 2026, essa divisão deixou de existir da mesma maneira.

Roma agora está politicamente alinhado a Neto e disputa o Senado dentro desse campo. Isso não significa que seus votos de 2022 sejam automaticamente transferidos — votos pertencem aos eleitores, não às lideranças.

Mas significa que a direita que estava dividida em 2022 chega muito mais próxima de um mesmo projeto eleitoral em 2026.

Neto acrescenta ainda outros ativos.

O prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo, representa uma das principais referências políticas da oposição no maior município do interior baiano. Em Salvador, o apoio do presidente da Câmara Municipal, Carlos Muniz, amplia a composição política em torno de sua candidatura.

Há ainda Zé Cocá, ex-prefeito de Jequié, escolhido para a vice, levando para a chapa uma liderança com forte inserção no interior.

A chegada do senador Angelo Coronel, buscando a reeleição agora em oposição ao governo estadual, acrescenta outra peça importante ao tabuleiro.

A composição das alianças partidárias também repercute no tempo disponível na propaganda eleitoral, outro elemento relevante numa campanha estadual de grandes dimensões territoriais.

Por outro lado, existe uma variável que merece atenção: ACM Neto pode não dispor hoje do mesmo volume de lideranças municipais que o acompanhou em outros momentos. O governo estadual possui enorme capacidade de articulação com prefeitos e bases municipais, algo especialmente relevante numa Bahia de 417 municípios.

Assim, os dois lados chegam com vantagens diferentes.

Jerônimo tem a capilaridade construída pelo exercício do governo e por um grupo político que comanda o Estado há duas décadas.

Neto tenta compensar isso com uma oposição mais unificada, a incorporação de importantes segmentos do eleitorado de direita, lideranças estratégicas e uma chapa politicamente mais abrangente.

Existe um relógio de 20 anos funcionando na Bahia?

Talvez aqui esteja uma das perguntas mais interessantes desta eleição.

A Bahia conhece ciclos políticos longos.

Durante décadas, o grupo liderado por Antonio Carlos Magalhães exerceu enorme influência sobre a política estadual. Até que, em 2006, uma eleição que parecia encaminhada mudou a história.

Paulo Souto entrou naquela campanha como favorito.

Jaques Wagner venceu ainda no primeiro turno.

Ali começava outro ciclo.

Vieram Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Vitória após vitória, o PT e seus aliados construíram uma hegemonia estadual que atravessou diferentes conjunturas nacionais, eleições municipais, crises políticas e mudanças econômicas.

Agora chegamos a 2026.

Exatamente vinte anos depois.

Isso não significa que exista prazo de validade matemático para grupos políticos. Evidentemente não existe.

Mas ciclos prolongados produzem dois movimentos simultâneos.

De um lado, constroem capilaridade, alianças, experiência eleitoral, identificação popular e uma poderosa estrutura política.

Do outro, acumulam desgaste, cobranças, promessas, contradições e uma inevitável pergunta que começa silenciosamente a circular:

continuar ou experimentar algo diferente?

Curiosamente, essa pergunta já apareceu antes na história baiana.

Em 2006, depois de um longo período de predominância de um mesmo campo político, o eleitor decidiu mudar.

Vinte anos depois, ninguém pode afirmar que o fenômeno se repetirá.

Mas tampouco parece prudente ignorar essa possibilidade.

E o que as pesquisas realmente dizem?

É justamente aqui que a comparação com 2022 exige cautela.

Há quatro anos, ACM Neto chegou a aparecer com vantagem extraordinária sobre Jerônimo e terminou derrotado.

Seria tentador, portanto, concluir que qualquer vantagem atual de Neto poderá novamente desaparecer.

Pode acontecer.

Mas existe uma diferença essencial.

Em 2022 havia um enorme contingente de eleitores que ainda precisava conhecer Jerônimo. Em 2026, o governador já é amplamente conhecido e avaliado.

Isso altera profundamente a dinâmica de crescimento de uma candidatura.

Ao mesmo tempo, os levantamentos atuais não apresentam cenário uniforme. Há pesquisas mostrando ACM Neto numericamente à frente e outras colocando os dois principais candidatos em situação muito mais próxima.

Decretar vencedor em agosto seria cometer precisamente o mesmo erro que 2022 ensinou a evitar.

Se 2022 foi apertado, 2026 poderá ser decidido nos detalhes

Há ainda um elemento que começa a aparecer com frequência nas conversas de bastidores, nas rodas políticas e naquela espécie de “bolsa de apostas” informal que acompanha toda eleição disputada.

A expectativa de muitos observadores é de uma eleição ainda mais acirrada que a anterior.

Há quem aposte em definição já no primeiro turno. Há quem enxergue novamente dois turnos. E existem aqueles que arriscam algo ainda mais ousado: uma diferença final próxima de um ponto percentual, talvez algo em torno de 100 mil votos.

Não é pesquisa. Não é projeção científica. Muito menos resultado antecipado.

É percepção política.

Mas serve para dimensionar o grau de equilíbrio que se imagina para a disputa.

Se em 2022 aproximadamente 419 mil votos separaram vencedor e derrotado, quatro anos depois cada prefeito, cada liderança regional, cada município, cada segmento do eleitorado e cada erro ou acerto de campanha poderá adquirir importância ainda maior.

Numa eleição eventualmente definida por margem mínima, uma pequena cidade deixa de ser pequena. Uma liderança aparentemente secundária pode fazer diferença. Uma declaração equivocada pode custar caro. E alguns milhares de votos conquistados ou perdidos em Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista ou nos pequenos municípios do interior podem alterar o destino do Estado.

4 de outubro responderá uma pergunta maior que a própria eleição

Talvez a eleição baiana deste ano não seja apenas uma disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto.

Pode terminar se transformando num julgamento sobre continuidade e mudança.

Jerônimo tentará demonstrar que os investimentos realizados, as novas escolas, obras e políticas implementadas justificam a continuidade de um projeto que governa a Bahia desde 2007.

ACM Neto tentará convencer o eleitor de que vinte anos são suficientes para avaliar esse projeto e que existe uma alternativa preparada para assumir o Estado.

Um possui a força da máquina estadual, a capilaridade municipal e Lula.

O outro reúne uma oposição que não estava unificada quatro anos atrás, incorpora João Roma e parcela importante da direita, agrega José Ronaldo, Zé Cocá, Carlos Muniz e Angelo Coronel e tenta transformar a competitividade registrada nas pesquisas em votos.

Jerônimo carrega agora aquilo que não carregava em 2022: um governo para defender.

Neto também carrega aquilo que não tinha naquela eleição: a lembrança de que favoritismo não significa vitória.

Talvez por isso 2026 seja uma eleição ainda mais complexa do que parece.

Em 4 de outubro, o eleitor baiano não responderá apenas quem deverá governar o Estado pelos próximos quatro anos.

Responderá, ainda que silenciosamente, outra pergunta.

Em 2006, a Bahia encerrou um longo ciclo político e iniciou outro.

Agora, exatamente vinte anos depois, diante de uma eleição novamente polarizada e de um eleitor que já conhece profundamente os dois principais campos políticos que disputam o Estado, a história coloca diante das urnas uma coincidência impossível de ignorar:

estamos apenas diante de mais uma eleição — ou diante do início de um novo ciclo?

Se a diferença será de dez pontos, cinco, apenas um; se serão 400 mil votos, 100 mil ou muito menos, ninguém pode afirmar.

As pesquisas continuarão produzindo fotografias. As campanhas tentarão construir tendências. Os grupos políticos farão suas contas. E a “bolsa de apostas” continuará funcionando nos bastidores.

Mas a única conta definitiva será feita depois que as urnas forem fechadas.

Quem viver, verá!

Por Redação BSF