Entre a força ainda expressiva de Lula, o desgaste natural de um longo ciclo político e o crescimento do voto cruzado, Jerônimo Rodrigues e ACM Neto caminham para uma disputa em que cada erro — e cada voto — poderá ser decisivo.
Por FABIANO BASTOS*
A Bahia chega à eleição de 2026 diante de uma circunstância política que, por si só, já tornaria esta disputa histórica: são 20 anos consecutivos de um mesmo grupo político comandando o Estado.
Ciclos longos de poder produzem legados, consolidam projetos e criam estruturas políticas fortes. Mas também acumulam desgastes. Depois de duas décadas, o eleitor já não compara apenas candidatos. Passa a comparar aquilo que foi prometido com aquilo que efetivamente chegou à sua vida.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais diferenças entre 2022 e 2026.
Há quatro anos, a eleição baiana aconteceu sob forte influência da polarização nacional entre Lula e Jair Bolsonaro. Mesmo assim, a disputa estadual apresentou três candidaturas politicamente relevantes. Jerônimo Rodrigues, ACM Neto e João Roma representavam campos distintos. No primeiro turno, Jerônimo obteve 49,45% dos votos válidos, Neto 40,8% e Roma 9,08%.
Jerônimo chegou àquela eleição praticamente como uma novidade para grande parte do eleitorado. Tinha baixa exposição anterior, carregava pouca rejeição pessoal e recebeu como principal ativo político o apoio de um grupo que governava a Bahia havia 16 anos, além da força eleitoral de Lula e do então governador Rui Costa.
Era, portanto, possível vender ao eleitor a ideia de continuidade com renovação de personagem.
Quatro anos depois, essa condição não existe mais.
Jerônimo agora disputa a eleição como governador. Não é mais uma promessa de governo: é um governo submetido ao julgamento das urnas. Segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, estradas, desenvolvimento econômico e capacidade de execução passaram a integrar uma conta que será apresentada pelo eleitor em outubro.
Isso não significa ignorar investimentos realizados pela atual administração. O próprio governo anunciou, somente em junho, um pacote superior a R$ 1,7 bilhão para infraestrutura, mobilidade e serviços públicos em cerca de 200 municípios. Há também aumento relevante dos investimentos estaduais no atual mandato. Por outro lado, análise recente das contas baianas mostrou deterioração do resultado fiscal em relação ao governo anterior, ainda que dívida e despesas com pessoal permaneçam dentro dos limites legais.
É exatamente essa dualidade que estará sendo julgada.
Do outro lado está ACM Neto. Se em 2022 carregava a condição de favorito durante boa parte da pré-campanha e terminou derrotado, agora tenta transformar aquela derrota em aprendizado político.
Seu principal cartão de visitas continua sendo a passagem pela Prefeitura de Salvador. Levantamentos realizados no final de sua administração registraram níveis elevados de aprovação: em maio de 2020, por exemplo, pesquisa Paraná Pesquisas apontou 78,5% de aprovação.
Neto procura transportar essa imagem de gestor para o debate estadual e, diferentemente de 2022, chega à reta decisiva cercado por uma oposição mais agregada. O discurso é relativamente simples: experiência administrativa, formação de equipes técnicas e encerramento de um ciclo de duas décadas do mesmo grupo no comando da Bahia.
Mas existe um personagem que, mesmo não disputando o Governo do Estado, continua tendo enorme capacidade de interferência nessa eleição: Lula.
Em 2022, o presidente recebeu impressionantes 72,12% dos votos válidos na Bahia, contra 27,88% de Jair Bolsonaro. Na mesma eleição, Jerônimo terminou o segundo turno estadual com 52,79%, enquanto ACM Neto alcançou 47,21%.
Os percentuais não podem ser simplesmente subtraídos para identificar transferência individual de votos, porque as bases de votos válidos das duas eleições são diferentes. Mas eles revelam algo politicamente importante: o voto para presidente na Bahia não necessariamente determina o voto para governador.
Em 2026, essa dissociação ganhou até apelido: “LuNeto”.
É o eleitor que mantém preferência por Lula na disputa nacional, mas considera votar em ACM Neto para governador. E esse eleitor poderá ser um dos personagens decisivos da eleição.
Não se trata apenas de percepção. A pesquisa AtlasIntel/A TARDE divulgada em setembro encontrou ACM Neto com 48,8% e Jerônimo com 47,5%, empate técnico dentro da margem de erro. Ao analisar o levantamento, o CEO da AtlasIntel reconheceu a existência de eleitores lulistas declarando voto em Neto e apontou justamente a capacidade de Lula tentar reconduzir parte desse eleitorado para Jerônimo como uma das variáveis centrais da reta final.
Outro levantamento mostrou fotografia diferente, mas igualmente apertada. A RealTime Big Data, em pesquisa realizada entre 4 e 8 de setembro, colocou Jerônimo com 45% e ACM Neto com 44%. Poucos dias antes, o Paraná Pesquisas havia registrado cenário inverso e vantagem maior para Neto: 48,5% contra 40,1%. Institutos e metodologias diferentes produzem fotografias distintas, mas a mensagem política que emerge do conjunto é semelhante: a Bahia está diante de uma eleição altamente competitiva.
E há outra diferença fundamental em relação a 2022.
João Roma obteve naquele primeiro turno 738.311 votos, ou 9,08% dos válidos. Era uma terceira candidatura com peso suficiente para interferir diretamente na matemática eleitoral. Hoje, embora existam outros candidatos registrados, os levantamentos concentram quase integralmente as intenções de voto em Jerônimo e Neto. Na AtlasIntel/A TARDE, por exemplo, os dois somavam mais de 96% das intenções declaradas.
Transformou-se, na prática, em uma disputa quase binária.
Um verdadeiro Ba-Vi eleitoral.
De um lado, uma estrutura política que governa a Bahia há duas décadas, com enorme capilaridade municipal, força partidária e um cabo eleitoral chamado Lula. Do outro, um ex-prefeito com recall elevado, experiência administrativa, oposição mais unificada e um discurso que procura transformar os 20 anos de continuidade em desejo de mudança.
Jerônimo precisa convencer o eleitor de que ainda há razões para renovar esse ciclo.
ACM Neto precisa convencê-lo de que chegou a hora de encerrá-lo.
E ambos possuem um adversário adicional: o próprio erro.
Quando uma eleição alcança tamanho grau de equilíbrio, uma declaração mal colocada, uma agenda equivocada, um fato novo, um debate ruim ou até mesmo a capacidade de mobilização nos últimos dias podem deslocar votos suficientes para alterar o resultado.
Há ainda uma possibilidade que não deve ser desprezada: diante da concentração extraordinária de votos nos dois principais candidatos, a eleição poderá terminar já no primeiro turno. Para isso, naturalmente, um deles terá de superar a maioria absoluta dos votos válidos. A fotografia atual mostra que essa hipótese está matematicamente no horizonte, embora esteja longe de permitir qualquer certeza.
Minha leitura, construída ao longo de mais de duas décadas acompanhando campanhas eleitorais na Bahia, é que dificilmente teremos uma vitória confortável.
Arrisco ir além.
Acredito que o próximo governador da Bahia poderá ser escolhido por uma diferença na casa dos 100 mil votos — para um lado ou para o outro.
Pode ser um pouco mais. Pode ser um pouco menos.
Em um estado com milhões de eleitores, seria uma diferença mínima. E é justamente por isso que, nesta eleição, cada detalhe terá tamanho peso.
Em 2022, Jerônimo representava a continuidade sem carregar integralmente o peso do governo que receberia.
Em 2026, ele carrega.
ACM Neto, por sua vez, já não pode se apresentar apenas como alternativa. Depois da derrota anterior, precisa provar que está preparado para transformar favoritismo ou empate nas pesquisas em maioria efetiva nas urnas.
Entre a força de Lula, o fenômeno “LuNeto”, a avaliação dos quatro anos de Jerônimo, a memória administrativa de ACM Neto e o desgaste natural de um ciclo de 20 anos, o eleitor baiano terá a palavra final.
E, desta vez, tenho a impressão de que a Bahia poderá conhecer seu próximo governador no detalhe, no último movimento e praticamente no último voto.
*Fabiano Bastos, empresário e consultor de marketing político, com mais de 20 anos de experiência em campanhas eleitorais na Bahia.

