Experimento realizado durante seis meses na Baía de Todos-os-Santos investiga se esponjas nativas podem dificultar a colonização de estruturas costeiras por espécies exóticas; resultados ainda são preliminares
O Projeto Mares, iniciativa realizada pela ONG Socioambientalista PRÓ-MAR, participa de uma pesquisa nacional que investiga se espécies nativas podem ajudar a dificultar o estabelecimento de organismos invasores em estruturas construídas no ambiente marinho. Na Bahia, o experimento foi realizado na Marina de Itaparica, na Baía de Todos-os-Santos (BTS), onde placas com diferentes combinações de esponjas nativas permaneceram submersas durante seis meses, entre fevereiro e agosto. O material coletado está em fase de triagem e identificação, e os resultados ainda são preliminares.
A pesquisa integra a Rede IntegraMar, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e formada por pesquisadores de diferentes regiões do Brasil. O experimento é conduzido por Edson Vieira, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), e Gustavo Dias, da Universidade Federal do ABC (UFABC). Na Bahia, o trabalho é desenvolvido em parceria com o Laboratório de Ecologia Bentônica da Universidade Federal da Bahia (LEB-UFBA), coordenado pelo professor doutor Francisco Barros, e conta com a participação de Ricardo Miranda, integrante do laboratório e coordenador científico do Projeto Mares. A ONG PRÓ-MAR, por meio do Mares, participou da implantação e retirada do experimento em campo, disponibilizou recursos humanos para as atividades e sua estrutura física para a triagem do material coletado.
Espécies nativas como barreira
Portos, marinas, quebra-mares, aterros e outras estruturas construídas na costa criam superfícies que podem ser colonizadas por organismos marinhos. Segundo Edson Vieira, esses substratos são mais simples e homogêneos que ambientes naturais, o que pode favorecer a ocupação por espécies invasoras. “Essas construções são substrato para organismos que crescem aderidos, mas são superfícies muito simples e planas, diferentes de um ambiente natural de rochas. As espécies nativas geralmente não gostam muito desses ambientes e sobra espaço para a colonização por espécies invasoras”, explica Vieira.
Para investigar se organismos nativos podem aumentar a resistência dessas superfícies, os pesquisadores instalaram placas com uma, duas e três espécies de esponjas nativas. “O que estamos testando é se, ao colocarmos nesse substrato esponjas nativas, que são organismos daqui do Brasil e crescem rapidamente ocupando espaço, isso funciona como uma espécie de barreira para espécies exóticas”, afirma Vieira. O experimento também é desenvolvido no Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Alagoas, permitindo avaliar a estratégia em diferentes pontos do litoral brasileiro.
Seis meses na Baía de Todos-os-Santos
Instaladas em fevereiro, as placas foram retiradas no início de agosto e levadas para a sede da ONG PRÓ-MAR, em Mar Grande, município de Vera Cruz, onde a equipe realizou a triagem e a identificação dos organismos bioincrustantes que se estabeleceram durante o período de exposição. Segundo Ricardo Miranda, a análise permitirá comparar as diferentes combinações de esponjas e investigar se a presença e a diversidade das espécies nativas interferiram no estabelecimento de organismos invasores. “Agora o material está sendo processado em laboratório e os resultados ainda são preliminares”, explica.
De acordo com Edson Vieira, a expectativa é que os resultados sejam conhecidos no primeiro semestre de 2027. A previsão se refere ao conjunto do projeto: os dados de todos os locais de experimentação, Bahia, Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Alagoas, serão analisados ao mesmo tempo. “A demora se dá porque temos que tirar dados das fotos e enviar as espécies coletadas para identificação por especialistas”, explica o pesquisador.
Para Ricardo Miranda, a participação do Projeto Mares nessa pesquisa dialoga com as ações de recuperação de espécies nativas já desenvolvidas pela iniciativa no Recife das Pinaúnas, na BTS. A investigação conduzida pela Rede IntegraMar, por sua vez, integra o eixo dedicado à conservação, políticas públicas e restauração e busca produzir conhecimento científico que possa contribuir para estratégias de conservação e manejo dos ambientes costeiros e marinhos. Segundo Miranda, os resultados poderão ainda contribuir com as ações desenvolvidas pelo Projeto Mares, ao ampliar o conhecimento sobre o uso de espécies nativas como uma possível estratégia para dificultar o estabelecimento de organismos invasores.
O Projeto Mares é uma iniciativa da ONG Socioambientalista PRÓ-MAR, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

