Fazendas, casarões, senzalas e antigas fábricas preservam parte fundamental do ciclo do açúcar; Engenho Pimentel esteve entre os pioneiros da introdução da máquina a vapor na Bahia e ainda guarda estruturas que permitem uma viagem material por diferentes períodos dessa história
Poucas regiões brasileiras permitem compreender tão de perto a formação econômica, social e cultural do Brasil quanto o Recôncavo Baiano. Entre a Baía de Todos-os-Santos, seus rios e as terras férteis do massapê, desenvolveu-se, a partir do século XVI, uma das mais importantes áreas produtoras de açúcar da América portuguesa.

Ainda hoje, antigas casas-grandes, capelas, fábricas, senzalas, ruínas e sedes de engenhos espalhadas principalmente por municípios como São Francisco do Conde, Candeias, São Sebastião do Passé, Santo Amaro e Cachoeira ajudam a contar uma história que atravessa séculos.

É uma história de riqueza e inovação tecnológica, mas também profundamente marcada pela escravidão. A prosperidade açucareira do Recôncavo foi sustentada durante séculos pelo trabalho compulsório de africanos escravizados e seus descendentes. Conhecer esses antigos engenhos significa, portanto, observar simultaneamente o desenvolvimento econômico do período e uma das faces mais duras da formação brasileira.
Pimentel e a chegada do vapor
Dentro dessa história, o Engenho Pimentel, em São Sebastião do Passé, ocupa posição particularmente interessante.


Sua existência está documentada pelo menos no início do século XIX. Matrículas dos engenhos da Capitania da Bahia referentes a 1807 identificam Bento de Araújo Lopes Vilas Boas, futuro Barão de Maragogipe, como proprietário dos engenhos Pimentel e Bom Gosto.
Poucos anos depois aconteceria uma transformação tecnológica decisiva.
Estudos históricos relacionam Bento de Araújo Lopes Vilas Boas à introdução de uma máquina a vapor para moagem da cana por volta de 1815. Registros daquele período também mencionam experiência semelhante no Engenho Boa Vista.
A historiografia recomenda, portanto, cautela quanto à afirmação de que o Pimentel tenha sido simplesmente “o primeiro engenho a vapor do Brasil” ou das Américas. O que a documentação permite afirmar com segurança é igualmente relevante: o Pimentel esteve entre os pioneiros da introdução da tecnologia a vapor na indústria açucareira baiana e brasileira.
Isso ocorreu quando a força motriz dos engenhos ainda dependia predominantemente dos animais ou das águas.
A máquina passou a movimentar mecanicamente as moendas, ampliando a capacidade produtiva e reduzindo a dependência da tração animal naquela etapa do processo. Posteriormente, o vapor seria empregado em outras fases da fabricação do açúcar.
A modernização, entretanto, foi gradual. Em 1834, a Bahia possuía 603 engenhos registrados: 495 movidos por animais, 62 pela água e somente 46 a vapor. Em 1875, entre 893 engenhos registrados, 282 já utilizavam vapor.
Pimentel, portanto, estava algumas décadas à frente de uma transformação que somente depois se disseminaria pelo Recôncavo.
Tecnologia não significou imediatamente o fim da escravidão
Há aqui uma distinção histórica fundamental.
A máquina a vapor substituiu principalmente a força empregada para movimentar as moendas, e não automaticamente o trabalho das pessoas escravizadas. A escravidão continuaria presente na economia açucareira baiana durante boa parte do século XIX.

Décadas depois, o próprio Pimentel voltaria a aparecer na história das transformações das relações de trabalho.
Em 1864, o engenho foi adquirido por João Garcez, defensor da utilização de trabalhadores livres. Documentação histórica registra que Garcez reorganizou a propriedade utilizando simultaneamente pessoas escravizadas e trabalhadores livres na cultura da cana, mas entregou a fabricação do açúcar a trabalhadores livres remunerados.
Em 1º de outubro de 1864, teve início uma moagem na qual a fabricação do açúcar utilizava exclusivamente trabalhadores livres. Na primeira safra, foram produzidas mais de nove mil arrobas.
Isso confere ao Pimentel uma importância singular: o engenho aparece tanto no debate sobre a modernização tecnológica, com a introdução precoce do vapor, quanto posteriormente nas experiências de transição do trabalho escravizado para o trabalho livre.
Uma casa-sede do final do século XIX
Existe outra particularidade importante para compreender o conjunto arquitetônico que chegou aos nossos dias.
O Engenho Pimentel é anterior à atual casa-sede.
O Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia, referência fundamental para o estudo da arquitetura histórica baiana, situa a construção da Casa do Engenho Pimentel no final do século XIX.



A ficha patrimonial descreve o imóvel como uma edificação de relevante interesse arquitetônico integrante de um conjunto constituído por casa-grande, engenho, senzala, casa de farinha e hospedaria.
Isso permite enxergar o Pimentel não como uma construção surgida em um único momento, mas como um complexo rural transformado durante gerações. O engenho já existia pelo menos no início dos oitocentos, recebeu precocemente a tecnologia do vapor e atravessou diferentes fases produtivas, enquanto a casa-sede preservada atualmente corresponde a uma etapa posterior dessa trajetória.
Pimentel: onde a história ainda pode ser tocada
Talvez nenhum documento consiga transmitir integralmente a importância do Engenho Pimentel como uma visita à propriedade.
O Bahia sem Fronteiras teve acesso ao local e às estruturas históricas ainda preservadas, algumas delas registradas fotograficamente pelo autor desta reportagem e que ilustram esta matéria.



A propriedade permanece ligada aos descendentes de João Garcez e conserva importantes testemunhos materiais de diferentes períodos de sua história.
A casa-sede permanece preservada, assim como estruturas que integravam o antigo complexo do engenho. Onde atualmente funcionam instalações rurais e áreas destinadas ao manejo dos animais ainda é possível observar construções relacionadas às antigas senzalas, mantendo características arquitetônicas que remetem à organização da propriedade no período escravista.


Não se trata apenas de tradição oral.
Estudos acadêmicos e levantamentos arquitetônicos registram essas estruturas no Pimentel. Mais impressionante ainda é o inventário do Barão de Maragogipe, antigo proprietário da fazenda, que relacionava no complexo 47 senzalas, além de arrecadação, enfermaria, estrebaria, carpintaria, estaleiro, depósito de bagaço, casa do feitor, olaria, alambique e ferraria.
Parte dessa organização espacial atravessou gerações e ainda pode ser identificada na propriedade.
Mas é no antigo setor industrial que talvez esteja o testemunho mais impressionante do Pimentel.
A histórica maquinaria associada ao engenho a vapor permanece preservada no local.
A antiga moenda e seus equipamentos continuam instalados na estrutura da fábrica. O espaço recebeu novos usos ao longo do tempo e atualmente integra instalações rurais da propriedade, mas preserva um testemunho material extraordinário da mecanização da produção açucareira.
Para quem visita o local, a dimensão histórica é imediata: não se está apenas diante de uma referência encontrada nos livros. É possível observar a máquina, sua estrutura e o ambiente no qual funcionou.
Mais de dois séculos depois da introdução pioneira do vapor no Pimentel, a permanência desses equipamentos ajuda a materializar uma transformação tecnológica ocorrida no Recôncavo no início do século XIX.
Ali estão, lado a lado, diferentes capítulos da formação econômica e social do Brasil: a casa-sede, as estruturas relacionadas às antigas senzalas, a fábrica e a tecnologia que marcou a passagem da força animal e hidráulica para a mecanização a vapor.
As fotografias atuais produzidas na Fazenda Pimentel e utilizadas nesta reportagem não são, portanto, simples registros de uma antiga propriedade rural.
São imagens contemporâneas de testemunhos materiais de uma história iniciada há mais de dois séculos.
Um território que ajudou a construir o Brasil
Pimentel, entretanto, integra um patrimônio histórico muito mais amplo.
Um dos exemplos mais expressivos é o Engenho Freguesia, em Caboto, Candeias, atual sede do Museu do Recôncavo Wanderley Pinho. Sua origem remonta ao século XVI, em terras provenientes de uma sesmaria. O conjunto foi atacado durante as invasões holandesas de 1624 e atravessou séculos de produção açucareira.
O conjunto conserva casa-grande, antiga fábrica e capela. A residência possui 55 cômodos, e o engenho permaneceu ligado à produção de açúcar até o final do século XIX.
Também em Candeias encontra-se o histórico Engenho Matoim, cujo sobrado e antiga fábrica integram o patrimônio protegido.
Em São Francisco do Conde, outro testemunho monumental é o Engenho Cajaíba, na Ilha de Cajaíba. A sede atual remonta essencialmente ao início do século XIX, substituindo um engenho anterior que teria sido erguido entre 1712 e 1715.



Outro nome indispensável é o Engenho Sergipe do Conde, um dos mais conhecidos da história açucareira brasileira. Foi naquele universo produtivo que André João Antonil reuniu, no final do século XVII, informações sobre técnicas, equipamentos, relações de trabalho e cotidiano que apareceriam em sua célebre obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas.
Cachoeira também conserva importantes vestígios dessa economia, entre eles o antigo Engenho Vitória, além de sobrados e propriedades diretamente relacionados à riqueza produzida pelo açúcar.
Dos engenhos às usinas
A chegada do vapor representaria apenas o início de uma transformação maior.
Gradativamente, engenhos tradicionais deram lugar a estruturas industriais mais complexas e, posteriormente, às usinas. Um exemplo dessa passagem está em Maracangalha, São Sebastião do Passé.
O antigo Engenho Maracangalha já existia em 1757. Em 6 de novembro de 1912, surgiria a Usina Cinco Rios, sucessora daquela estrutura produtiva. A usina tornou-se uma das mais equipadas da Bahia, dispondo de máquinas a vapor e, posteriormente, laboratório químico, oficina mecânica, serraria, carpintaria e fundição.
É praticamente uma linha do tempo material da economia brasileira: o engenho colonial, a introdução do vapor, a mecanização crescente e, finalmente, a formação das grandes usinas.
Um patrimônio ainda pouco conhecido
Percorrer o Recôncavo sob essa perspectiva é muito mais do que visitar antigas fazendas.
É caminhar por lugares onde parte decisiva da história econômica brasileira aconteceu.
Foi naquela região que a cana-de-açúcar ajudou a conectar a Bahia ao comércio atlântico; que famílias acumularam grandes fortunas; que milhares de africanos escravizados e seus descendentes produziram riqueza sob condições de extrema violência; que surgiram comunidades, vilas, igrejas e cidades; e onde também ocorreram algumas das primeiras experiências brasileiras de mecanização da produção açucareira.
O Engenho Pimentel simboliza particularmente bem essa transformação.
Documentado no início do século XIX, associado à introdução pioneira do vapor por volta de 1815, posteriormente à experiência com trabalhadores livres em 1864, dotado de uma casa-sede que o inventário patrimonial situa no final do século XIX e ainda preservando importantes testemunhos arquitetônicos e tecnológicos, Pimentel permite enxergar diferentes capítulos da história brasileira praticamente no mesmo lugar.
Ao lado de Pimentel, Freguesia, Matoim, Cajaíba, Sergipe do Conde, Vitória, Maracangalha e tantos outros formam uma espécie de museu territorial a céu aberto.
Mais do que construções antigas, são documentos de pedra, madeira, ferro e memória.
E talvez seja exatamente esse o grande valor do Recôncavo: ali, a história da Bahia e do Brasil não está apenas nos livros. Em muitos lugares, ela ainda permanece de pé.”
Por Bahia sem Fronteiras/Fabiano Bastos
Fotos:Acervo BSF/Fabiano Bastos

