Ipsos-Ipec aponta 53% de desaprovação ao presidente e avanço da avaliação negativa para 43%; números surgem em momento em que pesquisas eleitorais mostram redução da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro
A menos de três semanas do primeiro turno, um indicador que costuma merecer atenção especial em campanhas eleitorais volta ao centro da disputa presidencial: a rejeição ao governo e ao próprio presidente. Pesquisa Ipsos-Ipec divulgada nesta quarta-feira (16) mostra que 53% dos brasileiros desaprovam a maneira como Luiz Inácio Lula da Silva administra o país, enquanto 42% aprovam.
O dado ganha relevância quando observado em conjunto com a evolução da avaliação do governo. Segundo o levantamento, 43% classificam a administração Lula como ruim ou péssima, contra 33% que a consideram ótima ou boa e 23% que a avaliam como regular. Em junho, a avaliação negativa estava em 38%. Ou seja, houve avanço de cinco pontos percentuais em três meses, enquanto a avaliação positiva permaneceu praticamente estável — passou de 32% para 33%.
O movimento mais significativo ocorreu justamente entre os eleitores que estavam no campo intermediário. A parcela que considerava o governo regular caiu de 28% para 23%. Na avaliação da própria Ipsos-Ipec, os números indicam um endurecimento da opinião pública, com migração principalmente do grupo que anteriormente classificava a administração como regular para uma percepção mais negativa.
Há outro indicador que reforça esse quadro. 57% afirmam não confiar em Lula, contra 40% que dizem confiar no presidente. Em junho, eram 56% e 41%, respectivamente.
Rejeição não é voto, mas pode estabelecer um teto eleitoral
É importante fazer uma distinção: pesquisa de avaliação de governo não deve ser confundida com pesquisa de intenção de voto. Um eleitor pode desaprovar uma administração e, ainda assim, votar no presidente diante das alternativas apresentadas. Da mesma maneira, avaliação ruim ou péssima não significa automaticamente voto na oposição.
Politicamente, entretanto, índices elevados de desaprovação podem dificultar a conquista de eleitores fora do núcleo já consolidado de uma candidatura, especialmente numa eleição polarizada.
E é justamente nesse ponto que os números do Ipsos-Ipec encontram a corrida eleitoral.
Levantamentos recentes de diferentes institutos mostram aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro, principalmente nas simulações de segundo turno.
A Quaest divulgada na segunda-feira (14) registrou Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 40% em eventual segundo turno. A vantagem é apenas numérica: considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, o cenário é de empate técnico. Foi a primeira rodada da Quaest desde o início da campanha em que Flávio apareceu numericamente à frente do presidente nessa simulação.
O AtlasIntel/Bloomberg, divulgado no dia 10, encontrou quadro semelhante: Flávio com 46,4% e Lula com 46,2%, também em empate técnico.
Outros levantamentos apresentam diferenças igualmente estreitas. A pesquisa Indexa/Broadcast divulgada na terça-feira (15) mostrou Lula com 43% e Flávio com 42% num segundo turno, novamente dentro da margem de erro.
Já o Datafolha de 11 de setembro apontou 46% para Lula e 44% para Flávio, também caracterizando empate técnico. No primeiro turno, Lula registrou 39% contra 35% do senador.
Há, porém, levantamentos que mostram distância maior. A CNT/MDA divulgada nesta semana registrou Lula com 40,6% e Flávio com 30,4% no primeiro turno e, na simulação de segundo turno, 47,3% contra 40%.
As diferenças entre os institutos recomendam cautela: metodologias, períodos de coleta e amostras variam. Pesquisa eleitoral representa um retrato do momento, não uma previsão do resultado das urnas.
O desafio está além da base consolidada
Os recortes do Ipsos-Ipec ajudam a compreender onde estão as principais diferenças na avaliação presidencial.
O Nordeste permanece como a região mais favorável ao governo: 47% consideram a gestão ótima ou boa, enquanto 29% a classificam como ruim ou péssima. A aprovação da maneira de Lula governar chega a 59% na região.
O quadro se inverte nas demais regiões. A avaliação ruim ou péssima chega a 49% no Sul e 48% no Sudeste e no conjunto Norte/Centro-Oeste. A desaprovação à forma de governar alcança 60% no Sul e 58% no Sudeste e Norte/Centro-Oeste.
Há ainda um componente econômico importante. Para 45% dos entrevistados, a situação econômica do país piorou nos últimos seis meses, contra 23% que perceberam melhora. Existe, contudo, um contraponto favorável ao governo: 42% acreditam que a economia estará melhor nos próximos seis meses, percentual superior aos 36% registrados em junho, enquanto os pessimistas caíram de 32% para 25%.
A disputa entra na reta final com dois movimentos simultâneos
A fotografia produzida pelas pesquisas nesta reta final revela dois fenômenos que precisam ser analisados separadamente.
De um lado, Lula continua competitivo e aparece à frente de Flávio Bolsonaro em parte dos levantamentos, inclusive com vantagens maiores em algumas pesquisas. Do outro, diferentes institutos passaram a registrar uma disputa mais estreita no segundo turno, e alguns já colocam Flávio numericamente à frente, embora dentro das respectivas margens de erro.
É nesse contexto que o Ipsos-Ipec desta quarta-feira assume importância política. O principal sinal não está apenas nos 43% de ruim ou péssimo, mas na trajetória: a avaliação negativa avançou cinco pontos desde junho, enquanto a positiva permaneceu praticamente parada.
Rejeição e desaprovação, isoladamente, não definem eleição. Mas, quando crescem simultaneamente à redução da distância entre situação e oposição nas pesquisas de intenção de voto, passam a compor uma variável relevante para compreender o comportamento do eleitorado.
A menos de três semanas das urnas, portanto, a questão central deixa de ser apenas o tamanho da vantagem de um candidato sobre o outro. Passa também por saber até onde cada candidatura consegue avançar além do eleitorado que já conquistou — e quanto a rejeição poderá dificultar essa expansão na reta final.
A pesquisa Ipsos-Ipec ouviu presencialmente 2 mil eleitores em 130 municípios entre 9 e 13 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

