TJBA julga nesta sexta abertura de PAD inédito por racismo religioso contra juiz

Processo pode resultar no afastamento cautelar e, ao final, até na perda do cargo do magistrado que determinou a retirada da fotografia de uma candomblecista no Fórum de Camaçari

O Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) julgará, nesta sexta-feira (28), o procedimento envolvendo o juiz de Direito Cesar Augusto Borges de Andrade, acusado de racismo religioso após determinar a retirada da fotografia da sacerdotisa do Candomblé, Solange Borges, de uma exposição instalada no Fórum Clemente Mariani, em Camaçari.

Durante a sessão, o Tribunal Pleno deverá analisar as conclusões da sindicância instaurada pela Corregedoria-Geral da Justiça e abrir um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o magistrado. Há expectativa de que o procedimento disciplinar seja instaurado para aprofundar a apuração da conduta funcional.

O caso é considerado inédito porque poderá representar um dos primeiros processos disciplinares contra um magistrado brasileiro fundamentados na prática de racismo religioso. Dependendo das conclusões do PAD, o juiz poderá sofrer sanções funcionais, inclusive a perda do cargo, observados o devido processo legal e as regras aplicáveis à magistratura.

O episódio ocorreu em fevereiro deste ano, quando o magistrado determinou a retirada da fotografia da candomblecista Solange Borges de uma exposição no Fórum de Camaçari, alegando a necessidade de preservar a laicidade do Estado. Uma fotografia contendo a imagem de um santo católico, entretanto, permaneceu exposta no mesmo espaço.

A aplicação seletiva do princípio da laicidade motivou uma representação administrativa e uma notícia-crime apresentadas pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (IDAFRO), presidido pelo advogado Hédio Silva. Para a entidade, a retirada exclusiva da imagem ligada ao Candomblé evidencia tratamento discriminatório contra as religiões de matriz africana.

O presidente do TJBA, desembargador José Edivaldo Rocha Rotondano, determinou posteriormente a reinstalação da fotografia. No último dia 21 de agosto, ele se encontrou com Solange Borges no Fórum de Camaçari e pediu desculpas publicamente, em nome do Poder Judiciário baiano, pelo episódio.

Para Hédio Silva Júnior, a instauração do PAD será uma resposta necessária diante da gravidade dos fatos. O advogado também defende o afastamento cautelar do magistrado durante a tramitação do processo.

“Diante da gravidade da conduta e dos elementos já reunidos na sindicância, esperamos que o Tribunal de Justiça da Bahia determine a instauração do Processo Administrativo Disciplinar e também o afastamento cautelar do magistrado. A medida é necessária para preservar a dignidade da vítima, a regularidade da apuração e a própria credibilidade do Poder Judiciário. O princípio da laicidade não pode ser utilizado de forma seletiva para censurar e invisibilizar as religiões de matriz africana”, afirma Hédio Silva.

Segundo o presidente do IDAFRO, a responsabilização individual também deve ser acompanhada de mudanças estruturais na formação dos integrantes do sistema de Justiça. “Este julgamento pode estabelecer um precedente histórico. O racismo religioso quando parte de quem tem o dever constitucional de proteger direitos, exige uma resposta ainda mais firme do Estado”, acrescenta.